O legado de Boechat

O legado de Boechat

Roberto Livianu*

12 de fevereiro de 2019 | 09h28

Roberto Livianu. FOTO: DIVULGAÇÃO

Ricardo Boechat voltava para casa de helicóptero após dar uma palestra em Campinas. Pretendia almoçar com a família, mas, já em sobrevoo ao Rodoanel, após ser tentado um pouso forçado na pista da via em decorrência de circunstâncias que se espera sejam esclarecidas, houve colisão frontal da aeronave.

O helicóptero, que pertencia a uma empresa não autorizada a executar serviços de táxi aéreo, colidiu com um caminhão que passava por ali, talvez não visualizado do alto pelo piloto por ter sido encoberto por dois viadutos sob os quais acabara de passar.

Em virtude da colisão, imediatamente o helicóptero explodiu e a fatalidade ceifou as vidas do piloto e do jornalista, um argentino criado em Niterói, no auge aos 66 anos, que conquistou o Brasil com sua coragem, que coexistia com sua inteligência, integridade, irreverência e carisma, que dele fizeram um gigante do jornalismo e da comunicação de massa.

Tive o privilégio de ouvi-lo e de conhecê-lo pessoalmente no 97.º Encontro de Jornalismo da Folha, exatamente um ano atrás. Suas palavras eram absorvidas pela plateia como se provenientes de um grande guru.

“O problema não é a fake news. É a fuck news.” Conseguia assim ser filosófico, sintético, profundo e comunicativo sem perder a irreverência. Era divertido – sua marca registrada.

De norte a sul, de leste a oeste do País, a tristeza e o sentimento de perda irreparável de um raro ser confiável em meio a nosso mar de desconfianças capturaram a todos.

Os brasileiros sentiram como se tivessem perdido alguém da família. Boechat conquistou o respeito e o amor fraterno de seus telespectadores, ouvintes, leitores e seguidores. Até quem ele sempre criticou fragorosamente se manifestou com consternação.

Ele criticava com ética, com lastro, com extrema propriedade, sem jamais se tornar súcubo do poder, sem viver instalado nos recônditos do puxassaquismo fácil. Apaixonado por sua profissão, sempre trilhou o caminho da busca da verdade, como algo sacerdotal e do qual nunca se afastou. Nunca se teve notícia de qualquer atitude abusiva ou oportunista – tinha a ética como premissa elementar.

Todos da mídia, à unanimidade, proclamaram em público o sentimento de perda e tristeza pelo falecimento do admirado colega, como uma lacuna que se cria, impossível de ser preenchida. Ele era um ser absolutamente singular e insubstituível.

Mas, além do jornalismo independente que praticava, penso que outro predicado seu explica as reações a sua perda. Endurecia, sem perder a ternura. Informava tragédias e escândalos sem frieza nem conservantes, sem olhar pasteurizado ou fisionomia plastificada. Não era um mero robô transmissor de informações. Fazia-o com alma, coração e sentimento. Sofria o drama junto com o destinatário da notícia. Era gente.

Não tinha medo de ser ele mesmo. Era autêntico, alguém que transmitia confiabilidade, seriedade, honradez. Mesmo acrescentando pitadas de humor, muitas vezes ria de si mesmo, sem se preocupar em ser politicamente correto. Boechat não era artificial.

Deixa sua marca na história da comunicação como um justo, por sua postura de ser humano transparente, destemido, verdadeiro, que, mesmo conquistando o poder da mídia, nunca se afastou de sua essência original, que o acompanhou por toda a vida. Ele tornou mais agradavelmente verdadeira do que nunca a frase: dá poder a alguém e verás seu caráter.

*Roberto Livianu, Doutor em Direito pela USP, promotor de Justiça em São Paulo, é idealizador e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção

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