O lado bom da desgraça

O lado bom da desgraça

José Renato Nalini*

03 de maio de 2022 | 10h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A guerra da Ucrânia é um horror. Testemunho da involução humana. Prova inconteste de que a humanidade marcha a ré. Só que ela obriga os países a pensarem seriamente na transição energética. Petróleo é combustível fóssil venenoso. Já deveria ter sido abandonado há tempos. Só não foi porque a cupidez é o móvel que faz o consumismo funcionar. Se a humanidade fosse de fato inteligente, se preocupasse com as pessoas e não com o dinheiro, energias limpas já estariam disponíveis há muito tempo.

Uma civilização do automóvel, erro crasso no Brasil que abandonou a ferrovia e deixou durante tanto tempo o metrô relegado ao atraso, precisa se preparar para o carro elétrico.

O hidrogênio verde é outra alternativa que precisa ser encarada. Ele resulta da eletrólise da água, que separa hidrogênio do oxigênio. Quase quatrocentos projetos já haviam iniciado antes da guerra, para produzir hidrogênio verde em grande escala. Ele tem tudo para se converter no combustível mais competitivo.

O Brasil poderia estar mais adiantado não houvesse sufocado a pesquisa e alimentado o obscurantismo, o armamentismo, o terraplanismo e outros ismos indicativos da nossa indigência mental. Dispomos de algumas das melhores Universidades do planeta e contamos com cérebros privilegiados, como o de José Goldenberg, por exemplo. Ele poderia ter formado gerações de cientistas e hoje não estaríamos à procura de um destino junto às nações civilizadas.

Ainda assim, a falta de energia na Europa é capaz de fornecer um alento para a combalida economia brasileira. O hidrogênio verde é o combustível do amanhã e o Brasil, se quiser, poderá ser uma fonte produtora viável e promissora.

As empresas é que devem liderar esse processo, pois governo em regra é incompetente para encarar crises. Há muitos desafios postos e eles precisam ser vencidos com estudo e inteligência. Há um enorme interesse estrangeiro na aquisição de hidrogênio verde. As energias eólica e solar são consideradas as principais fontes para o processo do hidrogênio verde. Para se valer dessa excelente oportunidade, é urgente dobrar a capacidade da matriz elétrica brasileira, só com energia limpa.

Em recente entrevista, Luiz Augusto Barroso, diretor-presidente da Consultoria PSR, especializada em energia, acredita que se acelerará a substituição do gás natural pelo hidrogênio na União Europeia. Esta já anunciou a meta de importar dez milhões de toneladas de hidrogênio até 2030. Com o preço do petróleo tão elevado, as tecnologias verdes se tornam mais competitivas. O negócio do hidrogênio como commodity de exportação ficou bem mais concreto. Além disso, é preciso investir em pesquisas para aprimorar a eficiência energética. Ainda há muito desperdício na prática.

O hidrogênio verde é hoje a grande aposta planetária com vistas a um porvir neutro em emissão de gás carbônico. O melhor substituto para o petróleo. Obtido mediante a eletrólise da água, que por corrente elétrica separa o hidrogênio do oxigênio. Só que, para ser considerado verde, a energia elétrica precisa provir de fonte totalmente renovável, como a eólica e a solar.

Além do carro elétrico, as baterias têm de ser barateadas para serem usadas como objeto de armazenamento de energia eólica e solar em grande escala. A guerra da Ucrânia, portanto, embora deva envergonhar os homens de bem, vai trazer benefícios para o Brasil, se ele souber aproveitar a oportunidade. Mas é a sociedade civil e a empresa, essa instituição vitoriosa, que poderão atuar de verdade. Não se espere de governo.

Tudo poderia estar bem adiantado, houvesse política estatal focada nos verdadeiros interesses nacionais. Infelizmente, a política partidária tornou-se um fim em si mesma, uma busca incessante de obtenção de mais poder, mais verba e mais tempo nos cargos e nas sinecuras.

Perde-se muito tempo no Brasil com orçamento secreto, golpes de populismo eleiçoeiro, fortalecimento de Fundo Eleitoral e Partidário, deixando de aproveitar a oportunidade de vender crédito de carbono, algo que preocupa todo o mundo civilizado. Como advertem Claudio Sales e Alexandre Uhlig, presidente e diretor de assuntos socioambientais e de sustentabilidade do Instituto Acende Brasil, o comércio de carbono precisa ser ampliado para todos os setores econômicos. A agropecuária, por exemplo, junto com o uso da terra, emite mais de 70% dos gases venenosos no Brasil. O setor elétrico só emite 2% do total de CO2. Esses os assuntos que deveriam motivar os parlamentares e os agentes do Executivo efetivamente empenhados em salvar o Brasil.

E a desgraça da guerra ampliou a potencialidade brasileira, o que deveria despertar da letargia aqueles que podem mudar o atual cenário.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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