O jogo infinito

O jogo infinito

Marcio Cavalieri*

06 de agosto de 2020 | 07h15

Marcio Cavalieri. Foto: Divulgação

A mudança que queremos não acontece em nosso tempo. Esta reflexão me veio à mente, após uma live recente do SAS, com Simon Sinek, autor conhecido pelo famoso conceito do Golden Circle, onde o porquê do que fazemos é a questão mais importante. Aqui eu trago para reflexão outro conceito dele que considero muito complementar. Os jogos infinitos versus os finitos. Ambos coexistem em nossas vidas. A necessidade de entrega de um projeto com prazo definido ou a meta de perder três quilos em dois meses, são jogos finitos. Já a rotina para manter uma instituição de pé ou permanecer no peso pelo resto da sua vida, são jogos infinitos. Neste último, o movimento é essencial, pois o jogo se transforma continuamente. Passo a passo, sem afobação, em uma busca contínua por melhorias e incrementos diários.

Vivi uma experiência pessoal que me deu um novo olhar sobre isso. Há alguns anos, rompi um tendão enquanto praticava esportes e me submeti a uma cirurgia. Conversando com meu fisioterapeuta, sobre o tempo de recuperação, ele me disse “Vamos acompanhar dia a dia, uma sessão após a outra. O seu corpo responderá de acordo com o nosso trabalho e com o que a sua mente projetar”, e foi assim. Nas mais de quarenta sessões, os resultados, cumulativos, começaram a aparecer muitas semanas depois e, então, me curei, sem qualquer restrição de movimento. Entender esta diferença nos ajuda a não vivermos presos na ansiedade ou frustração. E o melhor que podemos fazer é nos aprimorar e direcionar a nossa vida, empresa ou qualquer empreendimento que façamos, para o caminho que consideramos o certo.

Isso remete, naturalmente, à discussão sobre propósito, causa ou razão. A questão central que continua é o porquê a gente faz ou deveria fazer algo. Em tempos como os que estamos vivendo, repensar a vida como um todo é um exercício saudável. Pode parecer doloroso, mas, certamente, será libertador. Não existe mudança, de fato, sem ações diárias e contínuas. Um bom hábito, repetido várias vezes, pode se tornar uma virtude, ao contrário do vício, em que os maus hábitos são repetidos várias vezes. Trazendo para nosso dia-a-dia como comunicadores, isso se aplica, totalmente, para as marcas e empresas.

Jim Collins, em seu best seller “Feitas para Durar”, apresenta exemplos e características que uma empresa precisava ter e o que deveria fazer para uma trajetória duradoura. Quando olhamos as 500 maiores da Standard & Poor’s, percebemos que a lista muda, bastante, ao longo dos últimos anos. O jogo infinito é implacável com aquelas empresas que não entenderam que as pessoas mudam e que, com isso, repensam seus valores e hábitos de consumo. Adotar um mind set de jogo infinito beneficia, também, os jogos finitos. Cuidar bem dos seus colaboradores faz com que eles cuidem bem da empresa e, consequentemente, muito melhor dos seus clientes.

A pandemia acelerou muitas mudanças. Nunca se falou tanto em propósito e causa como nos últimos tempos. Quebrou tabus sobre o trabalho remoto em muitas áreas, nos mostrou  o quanto o ensino à distância ainda exige preparo, tanto dos professores como pais e alunos e, ainda, escancarou o desejo da sociedade em relação às empresas serem mais empáticas, sustentáveis e responsáveis socialmente. O estudo do Kantar Barômetro Covid-19 dá uma pista sobre isso quando mostra que 88% dos brasileiros ouvidos querem saber das marcas qual será a sua utilidade na rotina que se estabelece no “novo normal”.

Sinek se auto-intitula um otimista. Confesso que eu, assim como ele, também, me considero um otimista e acredito nas pessoas e na humanidade. Ter uma mentalidade de que o nosso jogo é infinito nos oferece uma nova perspectiva para as coisas. Se tem algo que a pandemia, certamente, nos ensinou é que somos seres adaptáveis. Nos adequamos a qualquer cenário e situação quando somos obrigados. Certamente, as marcas, também, podem fazer isso e nosso papel como comunicadores é ajudá-las nesta transformação, que é um jogo de pontos corridos e mata-mata ao mesmo tempo.

*Marcio Cavalieri, sócio-fundador da RPMA Comunicação

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