O inusitado jogo de xadrez

O inusitado jogo de xadrez

Edson Miranda*

12 de dezembro de 2020 | 06h30

Edson Miranda. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

O jogo de xadrez sempre foi visto como um esporte da elite intelectual. Bobby Fischer, Garry Kasparov e José Raul Capablanca foram notáveis enxadristas, dentre muitos outros de notável habilidade e inteligência.

Mas, é muito comum trazer o jogo de xadrez para a seara política, como uma metáfora. Afinal a política exige estratégias com várias peças num tabuleiro, que podem envolver o Parlamento, o Executivo e até o Judiciário. E isto em todas as esferas.

Atualmente, assistimos um jogo que poderíamos, no mínimo, qualifica-lo como inverossímil.

De um lado temos o governador de São Paulo, um jogador preciso como um ourives e astuto como um lobo. Ele já vem movimentando suas peças há tempo, aproveitando-se da demora do adversário em tomar qualquer iniciativa.

Estabeleceu um contato na China, sacou um convênio e agora se apresenta como o “salvador dos brasileiros” anunciando sua rainha do xadrez: a Coronavac.

Essa é a peça forte no seu jogo, permitindo-lhe movimentar-se para qualquer direção e sem limites de casas do tabuleiro em seu avanço. Seu objetivo é dar um xeque-mate com efeitos deletérios para seu oponente em 2022, para enfim ganhar o campeonato da Presidência da República.

Do outro lado está o mandatário máximo do país. Ele demorou para iniciar suas jogadas e utiliza estratégias nada convencionais e algumas vezes inventa regras. Movimenta suas peças de maneira errática e as substitui ao seu bel-prazer.

Também faz de tudo para preservar seu rei no jogo, a qualquer custo, de olho em garantir o campeonato presidencial em 2022.

Na verdade, em seu íntimo, provavelmente seu pensamento é mais no sentido de virar o tabuleiro e acabar de uma vez por todas com esse jogo.

Talvez pense que o ideal fosse decidir a disputa no tiro ao alvo, modalidade esportiva em que teria vantagem, face à sua habilidade em manusear armas, que afinal agora podem ser importadas com vantagens tributárias. Quem sabe até numa disputa de corrida com barreiras, tendo em vista seu histórico como atleta, como jactou-se no passado mais recente.

A verdade é que nesse jogo estão presentes todos os brasileiros atônitos, assistindo a cada jogada, sabendo que muito provavelmente não serão eles próprios os vencedores dessa disputa. Resta-nos aguardar a próxima jogada, com a esperança de os enxadristas perceberem quem realmente deve ganhar com esse jogo: o povo brasileiro.

*Edson Miranda, advogado, professor universitário e escritor

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