‘O interrogado aqui é o senhor’, diz Moro a ex-diretor da Petrobrás

‘O interrogado aqui é o senhor’, diz Moro a ex-diretor da Petrobrás

Durante audiência na Justiça Federal no Paraná, Nestor Cerveró, réu da Lava Jato, reclama que está há cinco meses na prisão e ouve advertência de Sérgio Moro, juiz do caso

Redação

06 de maio de 2015 | 16h30

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O ex-diretor de Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró questionou o juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Operação Lava Jato – sobre a necessidade de mantê-lo preso preventivamente e ouviu como resposta: “O interrogado aqui é o senhor, não o juízo.”

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Acusado de comandar a área que era braço do PMDB no esquema de cartel e corrupção na Petrobrás, Cerveró foi interrogado na tarde de terça-feira, 5, na ação penal em que é acusado de lavagem de dinheiro na compra de um duplex em Ipanema, em nome de empresa offshore aberta por terceiros.

A audiência se prolongou por mais de uma hora. O juiz Moro questionou Cerveró se ele teria mais algo a dizer sobre as acusações que pesam contra ele. Além da ocultação patrimonial, o ex-diretor de Internacional é réu pela cobrança de propina de US$ 30 milhões na contratação de navios sonda e de desvios na compra da Refinaria de Pasadena nos Estados Unidos.

“Eu estou preso há cinco meses, sem nenhuma culpa provada. Nenhuma acusação que o senhor fez foi provada”, disse Cerveró, imediatamente corrigido pelo juiz. “Eu não fiz nenhuma acusação senhor Nestor, foi o Ministério Público.”

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“Mas o senhor aceitou a denúncia, baseado em ilações do Ministério Público”, retrucou Cerveró, apontando que a denúncia da Lava Jato na compra do duplex de R$ 7,5 milhões em que morou em Ipanema foi feita com base em reportagem de revista e que não houve investigação.

“Mas tem mais que revista, né senhor Nestor?”, advertiu Moro.

“Mas tem o que?”, insistiu o réu.

Cerveró é acusado de ter ocultado o dinheiro da compra do duplex por meio de empresa aberta no Uruguai. Ele diz ter morado dois anos de graça no imóvel, que seria um investimento intermediado por um conhecido.

“Não vou discutir com o senhor aqui as provas, vou avalia-las na sentença”, explicou Moro.

A sentença de Cerveró no caso deve ocorrer a partir de junho. A fase de interrogatórios dos réus é uma das fases finais do processo. O ex-diretor – que cumpre prisão preventiva em Curitiba, desde janeiro, quando foi preso – insistiu nos questionamentos ao magistrado.

“Mas qual o sentido de eu estar cinco meses preso, por que eu não posso responder em liberdade?”, disse Cerveró. “Conta no exterior o senhor não tem mesmo?”, questionou Moro. “Não tenho.”

O ex-diretor persistiu na tentativa e foi advertido pelo juiz.

“Mas, por que eu tenho que ficar aguardando cinco meses em prisão e não posso responder em liberdade ou em prisão domiciliar?”, perguntou Cerveró.

“Vou analisar isso na sentença, certo?”, disse Moro.

“Isso não pode ser analisado antes?”, insistiu Cerveró.

“Não, o processo está encerrado, praticamente”, explicou Moro.

“Mas já me custou cinco meses de cadeia”, prosseguiu Cerveró. “Qual foi o critério que o senhor usou para me colocar preso preventivamente?”

“Eu não vou ficar discutindo minhas decisões judiciais com o senhor”, advertiu o juiz. “O  interrogado aqui é o senhor, e não o juízo. O senhor pode falar, mas não é para ficar indagando o juízo, por que o juízo decidiu assim ou assado”, disse Moro e encerrou o interrogatório.

“Qual vai ser o prazo que vai sair…”, disse derradeiramente Cerveró.

“Vai sair em breve”.

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