O insaciável interesse dos homens

O insaciável interesse dos homens

José Renato Nalini*

15 de dezembro de 2020 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O ser humano é movido por interesses. O interesse é o móvel universal. Nada se faz sem interesse. Só que os interesses podem variar, segundo as circunstâncias.

Antes de 2020, o interesse estava centrado naquela faixa bem conhecida: mais dinheiro, mais poder, mais fama! O interesse pelo sexo é algo que justifica o crescimento da espécie.

2020 veio mostrar que dinheiro, poder e fama são inócuos se um vírus minúsculo se apodera do corpo humano e impõe à criatura mais pretensiosa que existe sobre a face da Terra, aquela que se autodenomina a única racional, feita à imagem e semelhança do Criador, a humilhação da enfermidade.

O interesse neste final do fatídico 2020, que se mostrava tão emblemático, na sua duplicidade – 20 mais 20 – parece variar. Para alguns, o interesse imediato é pela imunização. Que venham vacinas. De onde vierem. Não importa a nacionalidade. O que interessa é que imunizem seres humanos, aqueles cuja fragilidade se escancarou durante os últimos dez meses.

Isso obriga a uma reflexão, a respeito do problema da contradição dos interesses entre indivíduos, ou entre o povo e os tiranos. À tirania pode interessar um estado caótico, uma população aterrorizada e em crescente pânico, pois nessa turbulência pouca atenção se presta às fórmulas pelas quais se administra o Erário.

Não ocorreria à mentalidade do tirano que o terror pode implicar em inversão dos interesses e que haja interesse da coletividade mais lúcida por uma radical transformação do exercício do poder?

Meditar sobre a natureza do interesse e o que significa tal verbete aplicado a situações distintas, leva uma vez mais à ponderação sobre a relevância da educação das pessoas. É a educação que pode solucionar o conflito de interesses.

Os antigos já elucubravam sobre isso. O filósofo francês Claude-Adrien Helvetius (1715-1771), enxergava com clareza que os seres humanos são essencialmente iguais. Todos movidos pelo interesse egoístico. À educação incumbe fazer com que os interesses individuais sejam compatibilizados com os interesses comuns. Para ele, os homens são “semelhantes às árvores da mesma espécie, cujo germe, indestrutível e absolutamente o mesmo, não sendo jamais semeado exatamente no mesmo solo, nem precisamente exposto aos mesmos ventos, ao mesmo sol, às mesmas chuvas, deve assumir necessariamente uma infinidade de formas diferentes em seu desenvolvimento”.

O determinante é o meio, porém a educação pode atenuar sua influência e direcionar o humano para finalidades menos individualistas. Em pleno século dezoito, conferia à educação um significado mais verdadeiro e mais extenso, que não se confundia com a escolarização. Tudo o que serve à integral formação da personalidade pode ser incluído sob o abrangente conceito de educação.

Helvetius antecipa a influência da psique para afirmar que desde o instante em que a criança recebe movimento e vida, recebe as primeiras instruções. “É, às vezes, no ventre que a concebe que ela aprende a conhecer o estado de doença ou saúde”. Os objetos fazem parte do conceito de professores encarregados da infância. Para ele, o acaso faz com que os caminhos possam vir a ser diferentes. E entende por acaso, o encadeamento desconhecido das causas próprias à produção deste ou daquele efeito. Os acontecimentos na vida de cada ser humano modificam e marcam sua personalidade.

Causas imperceptíveis podem gerar consequências inimagináveis. E são os “pequenos acidentes que preparam os grandes acontecimentos de nossa vida”. Aquilo que parecia desimportante, insinua-se imperceptivelmente pelas fendas do rochedo que é o conteúdo intrínseco da pessoa, ali se adensam e um dia pode fazê-lo arrebentar.

Assim, a identidade fundamental da natureza não impede que o acaso, a educação e as circunstâncias produzam a diversidade entre os homens. Fácil chegar à constatação de que, sem educação de qualidade, é difícil domar o interesse particular, para submetê-lo a um interesse geral, muito diferente da soma de todos os interesses particulares.

Foi o interesse particular que deu origem às sociedades, mediante a figura do contrato. Ameaçados pelas feras, os homens sentiram que era do interesse de cada um em particular reunir-se em sociedade. Para isso instituíram penas e recompensas, o capítulo das sanções escarmentais e premiais. Pena e recompensa constituem os únicos elos entre o interesse privado e o geral.

Quando se vê o mal recompensado e o bem castigado, o homem de discernimento começa a repensar o pacto e questionar se ele deve ser preservado. As Nações, quando enfrentam esse desafio, necessitariam de um sábio-filósofo, aquele que tem paixão pela humanidade.

O planeta está à espera de sábios filósofos, providos de imenso amor pela humanidade toda, pela natureza e desapegados do restritíssimo interesse pessoal que, em regra, caracteriza as pífias lideranças produzidas numa fase melancólica em que a civilização derrapa em evidentes retrocessos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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