O inimputável oportunista

O inimputável oportunista

Antônio Carlos de Almeida Castro*

19 de março de 2020 | 05h00

Antônio Carlos de Almeida Castro. FOTO: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Versos Íntimos – Augusto dos Anjos

Neste momento de crise profunda, penso ser necessário que façamos algumas reflexões. É hoje consenso, ou quase, que o presidente Bolsonaro é inepto, despreparado, completamente ignorante e incapaz de entender os graves encargos do cargo que, legitimamente, ocupa. É um inimputável!

Também é de sabença geral que ele não tem nenhum cuidado com a dignidade do cargo. O Brasil atualmente é humilhado em todo o mundo devido à mais absoluta incapacidade do presidente Bolsonaro de dar um átimo de dignidade ao cargo. Uma tragédia!

Ocorre que ele age sob o comando de um grupo profissional – tanto que ganhou as eleições – sem nenhuma preocupação com a ética, com a verdade, mas com base em estudos e estratégias de poder. Este é o motivo do pedido de reflexão.

O Inimputável  disse em vários momentos que a crise do coronavírus é fabricada, é uma fantasia. E várias vezes desdenhou de líderes mundiais por não ter alcance mínimo intelectual para compreender a gravidade do momento. A opinião dele está clara e exposta em vários pronunciamentos, principalmente quando fala de improviso. Por isto mesmo é recorrente na imprensa a premência, urgência mesmo, de se discutir a oportunidade do impeachment.

Entretanto, o jogo do poder não é simples.

Mesmo na sua sagrada ignorância Bolsonaro tem um grupo de assessores. O ídolo dele – o também inepto presidente Trump – já deu um salto triplo carpado e voltou atrás no desdém à crise do coronavírus. O outro líder da direita, milhões de vezes mais polido e inteligente, o governador de São Paulo João Doria, tem dado demonstração de competência e oportunidade. Ou seja, logo o Inimputável vai fazer o caminho inverso e começar a pregar que a crise do coronavírus não é uma criação chinesa, não é uma fantasia.

O mais importante nesta hora não é isolá-lo. O isolamento só seria vantagem se fosse uma quarentena que o impedisse de opinar sobre o que ele não entende pois aí seria fadado ao mais absoluto silêncio.

Mas não podemos desprezar a força, até simbólica, da Presidência da República.

Vamos nos encher de coragem e enfrentar o novo Bolsonaro que está por vir: um Bolsonaro sem nenhum pudor, a pregar a gravidade da crise, capaz até mesmo de respeitar o trabalho do atual ministro da Saúde.

Todos nós vivenciamos, constrangidos, o presidente desautorizar o trabalho do Ministério da Saúde, afirmando que o ministro deveria se enquadrar na política bandida e criminosa da desinformação. O ministro da Saúde foi gravemente admoestado pelo presidente por fazer uma política séria, voltada  à realidade.

Mas este povo que apoia o presidente em boa parte não se preocupa com nada que não sejam as vantagens materiais e imediatas, com fundamento em uma pseudo discussão ideológica. Falsa. Rasa. Infantil. E a junção das crises econômica e de saúde é de uma profundidade abissal. O presidente perdeu o apoio até do Véio da Havan!

É hora de pensar no País, se possível ignorando este inepto! Vamos nos fixar na gravíssima crise e contribuir com o que cada um puder. Se não for possível ignorar este inimputável, vamos ter a dignidade de mostrar a ele o lugar de insignificância que ele próprio se reservou na história. Se ele não atrapalhar neste momento dramático já estará cumprindo o seu melhor papel.

*Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, advogado

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