O inferno são os outros

O inferno são os outros

O governo, a sociedade, procuradores da velha guarda, a imprensa... quem são os culpados pelo sistema, na visão dos delatores

Fábio Fabrini, Beatriz Bulla, Fábio Serapião e Breno Pires, de Brasília

13 de abril de 2017 | 19h01

Emílio Odebrecht. Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Emílio Odebrecht. Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Nos depoimentos de delação premiada, ex-executivos da Odebrecht dividiram com vários personagens a culpa pelo megaesquema de corrupção e pagamento de caixa dois a políticos no Brasil. Na lista dos acusados que aparecem nos relatos estão governo, sociedade, imprensa, medo de retaliação e até procuradores da velha guarda do Ministério Público. Os argumentos evocam a máxima de que ‘o inferno são os outros’.

A célebre frase é da peça ‘Entre quatro paredes’, do filósofo francês Jean-Paul Sartre, e refere-se ao fato de que muito dos problemas de cada um é resultado do encontro com o outro, com outras pessoas. Na peça, o personagem Garcin, ex-combatente fuzilado por deserção, cumpre pena eterna em um inferno ambientado num cômodo de uma casa burguesa.

“Então, é isto o inferno. Eu não teria acreditado… Vocês se lembram: o enxofre, o carniceiro, o fogo… Ah, que piada. Para quê o fogo? O inferno são os Outros”, diz o personagem na peça sobre o inferno.

Emilio Odebrecht, patriarca da família que dá nome ao grupo, investiu contra procuradores da República de sua geração e a ‘imprensa demagoga’ por não ter enfrentado a forma de se fazer política no Brasil há mais tempo.

Ele declarou que os partidos não brigam por cargos, mas para arrecadar recursos para si próprios e os políticos e criticou setores da sociedade por suposta omissão quanto às deformações do sistema.

“Os (procuradores) mais velhos, os da minha geração, não aceito essa omissão, e a própria imprensa. Essa imprensa sabia disso tudo e fica com essa demagogia. Acho que todos deveriam fazer uma lavagem de roupa sobre o que devíamos fazer”, disse o empresário. “É um negócio institucionalizado”, argumentou, acrescentando que a empreiteira paga propinas e caixa dois há 30 anos.

O filho de Emílio, Marcelo Odebrecht, já havia adiantado a visão da família de que governo e população faziam ‘vista grossa’ à corrupção.

Em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em março, Marcelo disse: “O governo sabia, a população sabia, eu sabia que o meu empresário, para atuar na Petrobrás, de alguma maneira, tinha de atender aos interesses políticos daquela diretoria. Eu fazia vista grossa, a sociedade fazia vista grossa, todo mundo fazia vista grossa”, disse.

Responsável pelas relações institucionais do grupo Odebrecht em Brasília – ou seja, pelo contato com os congressistas -, Cláudio Melo Filho diz que é do governo o poder para tocar temas de interesse do setor privado no País, o que faz com que as empresas tenham de dançar conforme a música tocada pelos políticos.

“O líder de governo se não tem todo poder, ele tem muito poder para determinar as coisas. Porque se um governo não quiser botar para votar um projeto de lei, não bota. E lutar contra o governo é muito forte. Se o governo quer que um assunto não ande, ele não anda”, disse Melo Filho.

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