O impacto do metaverso nas relações de trabalho

O impacto do metaverso nas relações de trabalho

Wagner Salles*

16 de novembro de 2021 | 06h00

Wagner Salles. FOTO: DIVULGAÇÃO

Meta (ex-Facebook), Microsoft, Nike, NVIDIA… O que essas gigantes têm em comum? A aposta – e o aporte – de bilhões de dólares naquilo que promete ser o futuro das interações sociais: o metaverso, nova proposta de tecnologia de integração entre o mundo real e o virtual.

Considerado o futuro da internet, o metaverso é baseado em uma realidade paralela, em que as pessoas são representadas por avatares que simulam aspectos da vida real. Em síntese, um espaço virtual que promove interações coletivas a partir de uma realidade aumentada. Se antes a materialização do conceito parecia restrita à ficção científica, como as projeções interativas retratadas no filme Minority Report, no Brasil, o cenário pode começar a mudar, ainda que lentamente, com a chegada da tecnologia 5G.

A partir do metaverso, as pessoas poderão se relacionar pessoal e profissionalmente à distância, em uma interação mais qualificada do que as atuais ferramentas de conexão virtual, como videoconferências, por exemplo. Nessa nova realidade virtual, pessoas se sentirão conectadas presencialmente por meio de uma tecnologia de realidade aumentada – e esse novo cenário configura novas possibilidades profissionais sem qualquer impedimento fronteiriço.

Mas quais são os impactos do metaverso nas relações de trabalho?

A grande mudança é que o deslocamento e a presença física das pessoas não mais serão necessários. Por meio da realidade aumentada e o uso de avatares, reuniões de trabalho poderão ser feitas à distância de forma mais qualificada do que as atuais conferências. Isso amplia a possibilidade de contratações profissionais em países diferentes, já que as pessoas não precisarão mais se mudar de território para trabalharem em multinacionais, por exemplo.

O mesmo ocorre com as possibilidades de promoção e transferência, que poderão acontecer a partir do momento em que o profissional pode estar em qualquer lugar, a qualquer momento, prestando qualquer serviço sem se deslocar fisicamente. Essa oportunidade inibe um dos problemas enfrentados no atual teletrabalho: a ausência de relações sociais. Com o metaverso, essas interações sociais poderão ser vivenciadas mesmo fisicamente à distância, em um grau maior de realismo.

Processos seletivos também se beneficiarão dessa nova tecnologia – entrevistas, provas e dinâmicas de grupo ocorrerão em realidade aumentada com experiência análoga ao mundo real. Assim como as seleções, os treinamentos corporativos saem ganhando com essa realidade aumentada. Cenários poderão ser montados de acordo com as necessidades dos treinamentos, como se as situações estivessem ocorrendo no mundo real, a fim de melhorar a experiência e a preparação dos profissionais envolvidos. Possivelmente os planos de recompensa também sofrerão mudanças, passando a usar criptomoedas e até mesmo cadeia de blockchain.

No entanto, nem tudo assegura vantagem no metaverso no que se refere às relações de trabalho. Uma das principais questões diz respeito à regulamentação desse espaço virtual e que implicações isso terá na legislação do trabalho. Sobretudo no que tange ao rompimento de fronteiras, com contratações e serviços prestados por profissionais em qualquer lugar do globo, fica a pergunta: quem regulamentará as relações de trabalho em uma realidade aumentada que se configura como um “território internacional”?

Questões como assédio sexual e assédio moral também precisariam de releituras para capturar esses crimes em um ambiente de realidade aumentada. Aspectos sobre saúde do trabalhador, desde a ergonomia até riscos psicossociais, teriam de ser revisados, a fim de avaliar quais impactos de salubridade essa nova tecnologia gera sobre os profissionais.

Outro aspecto polêmico gira em torno da privacidade (ou falta de) e a necessidade de os usuários terem de compartilhar ainda mais dados com as empresas. Se dispositivos como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) serão suficientes para preservar e garantir direitos fundamentais de liberdade e de privacidade e a livre formação da personalidade de cada indivíduo, só o tempo dirá.

Os benefícios do metaverso para o ambiente de trabalho são inúmeros, assim como as obrigações legais que virão a reboque para controlar esse novo mundo. Quer queira, quer não, uma nova fronteira de possibilidades está sendo aberta diante de nossos olhos e telas. Resta-nos aproveitá-las da melhor – e mais responsável – maneira.

*Wagner Salles é professor de Gestão de Recursos Humanos na Universidade Veiga de Almeida (UVA), mestre em Administração pela Universidade Federal Fluminense (UFF), membro da Comissão Especial de RH do Conselho Regional de Administração do Estado do Rio de Janeiro (CRA-RJ) e pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Dinâmicas Contemporâneas (NICON-UFF)

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