O impacto do Enem Digital na prova de redação

O impacto do Enem Digital na prova de redação

Clayton Dick*

20 de outubro de 2020 | 03h30

Clayton Dick. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em 2021, cerca de 50 mil pessoas farão a aplicação piloto do Enem Digital, que será progressivo e, até 2026, deve ser obrigatório para todos os inscritos. A próxima edição da prova ainda contará com a redação escrita em papel, mas a versão digital também nesta disciplina parece ser inevitável.

Sair do mundo analógico para o digital pode causar um grande impacto principalmente na prova de redação. Isso tem justificativa: o hábito diário de se trocar e-mails no computador e mensagens por celulares não envolve todos os sentidos de quem escreve um texto à mão.

Na visão dos professores e pesquisadores Daniel M. Oppenheimer e Pam A. Mueller, que publicaram o artigo A caneta é mais poderosa do que o teclado, no renomado jornal Psychological Science, escrever à mão requer um processo cognitivo distinto do envolvido em teclar. E vão além, quem anota manualmente tem que ouvir, digerir e resumir a informação, pois não alcança a velocidade obtida ao digitar. E assim se captura a essência do conteúdo, obrigando o cérebro a se esforçar, o que aumentaria a compreensão e a retenção dos dados.

Oppenheimer e Mueller defendem a tese de que escrever à mão com as próprias palavras, acaba recriando o contexto, fazendo observações auxiliares, sínteses, conexões, conclusões pessoais, entre outros.

Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) do Enem de 2019, divulgou que dos 5,1 milhões de candidatos ao exame, a maioria tinha entre 21 e 30 anos, ou seja, usuários intensos do meio digital.

Faz parte do ser humano refutar no primeiro momento o que representa uma mudança, principalmente quando é praticada por muitos anos. Apesar da transição ser polêmica, quando tratamos de redação, é justamente pelo digital que o nível de plágio e cópia na internet podem ser monitorados, evitando que isso torne-se um hábito comum entre os alunos.

O meio digital também possibilita uma avaliação mais rápida e consistente do texto em termos de abordagem e organização geral da escrita, dando a alunos com caligrafia ruim condições mais equiparadas àqueles de boa caligrafia.

Quando uma pessoa tecla, no entanto, o cérebro não necessariamente processa o significado da informação, tornando, por vezes, o procedimento robotizado. De fato, a tecnologia nos coloca em um mundo de muitas possibilidades, o que facilita nosso dia a dia. Mas às vezes limita a criatividade. Segundo um levantamento feito por Carolina Siequeroli, responsável pela gestão dos dados de mais de 2,5 milhões de redações realizadas em plataforma especializada, aproximadamente 47 mil redações do Enem (2% da base) mencionaram o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman e sua teoria da “Modernidade Líquida”, comprovando que modismos de autores e modelos padrão de estrutura de textos se espalham pela internet.

Se por um lado os modismos muitas vezes servem como uma referência para os candidatos, por outro, eles irritam o corretor da redação. Imagine que, depois de ler dezenas de milhares de redações, o avaliador talvez não considere o repertório do Bauman exatamente original. O fato é que muitos alunos acabam utilizando a teoria da “Modernidade Líquida” de maneira inadequada, apenas porque memorizaram essa referência.

Apesar de muitos candidatos temerem a redação do ENEM, dados do Ministério da Educação e do Inep, mostraram que no ano passado, a nota média da prova dessa matéria foi a única que subiu em comparação ao período anterior. E olha que tudo isso aconteceu em um contexto onde 57 mil candidatos tiraram nota zero no exame por entregar a prova em branco. Outros 40 mil fugiram ao tema proposto e 23 mil copiaram o texto apresentado no enunciado da prova.

A cultura digital nos permite fazer mais em menos tempo, veio para ficar, mas como ela vai impactar no objetivo original da avaliação de redação do ENEM?

O ENEM digital, como um todo, possibilita que o exame seja modernizado e descentralizado física e temporalmente. Em outras palavras, passa a ser possível fazer a prova em diversas datas do ano, em locais diferentes, incluindo localidades fora do país. Nesse sentido, a prova fica mais alinhada com grandes exames internacionais, como o GMAT (Graduate Management Admission Test), prova de admissão exigida pela maior parte das escolas de negócios nos Estados Unidos e na Europa; o SAT (Scholastic Aptitude Test), um dos exames mais comuns dos EUA, utilizado pelas universidades estadunidenses em seus processos de admissão para graduação, entre outros.

*Clayton Dick é sócio-diretor da Redação Nota 1000

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