O impacto do coronavírus na indústria

O impacto do coronavírus na indústria

Márcio Grazino*

27 de fevereiro de 2020 | 15h00

Márcio Grazino. FOTO: DIVULGAÇÃO

Atualmente, qualquer problema com a China significa uma provável dor de cabeça para a economia em todo o mundo. Como comprador ou fornecedor, o gigante asiático é peça fundamental na dinâmica mundial dos negócios e pode significar o sucesso ou a bancarrota de muitas empresas em todos os continentes. No Brasil, obviamente, não é diferente.

Nesse contexto, um evento grave como a epidemia de coronavírus é um evento de arrepiar os cabelos. Inicialmente, a emergência de saúde, como é óbvio, concentra as atenções. Quando, em um segundo momento, outras consequências começam a ser analisadas, a economia ganha destaque. Na indústria, os primeiros sinais aparecem na produção. E como estamos falando da China, o mercado de tecnologia e eletrônicos surge na linha de frente dos problemas.

De acordo com a Trendforce, empresa chinesa de análise de cadeia de suprimento, a produção de smartphones no primeiro trimestre de 2020 pode cair 12% se comparada ao mesmo período em 2019. Seria o pior resultado para o primeiro trimestre em 5 anos. Ainda segundo a consultoria, “o surto teve um impacto significativamente alto na indústria de smartphones, porque essa cadeia de suprimentos é intensiva em trabalho manual”.

Menos chineses trabalhando vai prejudicar ainda a manufatura de monitores, TVs e notebooks, com a redução de milhões de unidades, na conta da Trendforce. A sequência são linhas de produção desabastecidas no mundo inteiro sem os componentes fabricados na China, lojas sem produtos, menos vendas, menos emprego e menos dinheiro na economia.

Segundo notícias veiculadas na mídia, a fábrica da LG em Taubaté e as fábricas da Samsung e da Motorola na região de Campinas tiveram produção suspensas. A China é a principal fonte de componentes do Brasil, com 42% do volume total. A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) diz que “mesmo as [empresas] que não foram afetadas por esse problema citaram que se o abastecimento de componentes e insumos da China não se normalizar nos próximos 20 dias será muito difícil conseguir manter o mesmo ritmo de atividade nos próximos meses”.

Em maior ou menor grau, quase todos os outros setores da indústria estão sofrendo com o problema. E este é um efeito colateral da globalização, sobretudo quando a bomba explode em um player relevante como a China. Mercados conectados tanto fazem para impulsionar como atuam em conjunto para afundar. E isso não é um defeito, mas uma característica que deve ser prevenida e mitigada.

Por isso, não se trata de combater a globalização, que está provado trazer mais benefícios do que dificuldades. Temos, sim, que identificar as fragilidades do processo e criar mecanismos de gerenciamento dos riscos. Você, por exemplo, não vai pregar o fim do automóvel por causa dos acidentes de trânsito. Vai, sim, investir em prevenção e ter um seguro para diminuir o prejuízo quando o problema ocorrer. E, em geral, mais cedo ou mais tarde os riscos se concretizam. E o grau das consequências vai depender de como estamos preparados para lidar com a situação.

O coronavírus não é o primeiro e nem será o último. Temos agora é que solucionar mais esse problema e aprender para estarmos mais fortes para enfrentar o próximo.

*Marcio Grazino é empresário do setor de embalagens

Tudo o que sabemos sobre:

Artigocoronavírus

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.