O impacto do câncer de mama avançado em mulheres jovens

O impacto do câncer de mama avançado em mulheres jovens

André Mattar*

19 de outubro de 2021 | 10h30

André Mattar. FOTO: DIVULGAÇÃO

Chegamos a mais um Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama. É época de reforçar a importância da prevenção, do cuidado e da garantia de diagnóstico precoce e acesso a tratamentos inovadores para milhares de mulheres no Brasil.

Esse é um tipo de câncer que atinge cada vez mais mulheres mais jovens, em plena idade ativa, na chamada fase pré-menopausa. Tal diagnóstico causa, muitas vezes, o adiamento de planos e um impacto imensurável na vida pessoal e profissional dessas mulheres, que, além de tudo, sofrem com uma enorme disparidade nos tratamentos disponíveis, apenas por serem ou não clientes de um plano de saúde.

Atualmente, mais de 35% dos casos de câncer de mama são diagnosticados em estágios avançados, e a oferta de terapias já comprovadamente seguras, práticas, inclusive orais e de enorme impacto na vida dessas mulheres é urgente para mudarmos essa dura realidade, em que poucas conseguem acesso ao que há de mais novo na medicina. Uma vez que as pacientes possam ter acesso ao melhor tipo de tratamento para o seu tipo de câncer de mama, consequentemente, têm mais chances de seguir sua jornada com qualidade de vida e com a certeza de que estão sendo amparadas pelo sistema que faz parte da vida de todos os brasileiros: o Sistema Único de Saúde (SUS).

Inegavelmente, o SUS é um dos maiores patrimônios e maiores conquistas da sociedade brasileira. Garantido pela Constituição Federal de 1988, o SUS é o único sistema de saúde do mundo que atende mais de 190 milhões de pessoas, sendo que mais de 70% dependem exclusivamente desse sistema para ter acesso à saúde.

Entre seus princípios, estão a integralidade, universalidade e a equidade. Este último é especialmente importante quando pensamos na realidade do câncer de mama avançado em mulheres jovens: esse câncer pode ser mais agressivo na faixa etária pré-menopausa, com taxas de mortalidade mais elevadas quando comparadas às mulheres de idade mais avançada. Se faz, portanto, essencial que o SUS esteja preparado para receber e tratar essas mulheres, independentemente de seus status socioeconômico.

A pandemia mudou relações, impactou o diagnóstico precoce e o tratamento de diversos tipos de câncer, além de ter evidenciado uma desigualdade que já era latente e que se tornou insustentável. Sabe-se que apenas 25% das mulheres brasileiras têm plano de saúde. A imensa maioria de pacientes, quando descobre um câncer de mama, tem como única alternativa o tratamento via SUS, que há quase 20 anos não recebe atualizações relevantes para o tratamento do câncer de mama avançado do tipo mais comum, o RH+ e HER2-, que corresponde a cerca de 70% dos casos.

A mobilização de diversos setores da sociedade é muito importante para a mudança desse cenário. Recentemente, a CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) abriu uma janela de oportunidades para contribuição social, uma consulta pública para avaliação da incorporação de uma classe de medicamentos inovadora para o tratamento do câncer de mama avançado. Além de ser uma opção mais tecnológica, também é mais prática, considerando que sua manipulação é oral e não depende de internação ou ocupação de leito. É o que chamamos popularmente de “quimio oral” e traz segurança e comodidade para pacientes que precisam dar continuidade ao seu tratamento e, neste cenário pandêmico, conseguem fazê-lo sem maiores exposições.

Mas não é somente nessa oportunidade que os cidadãos podem exercitar seu poder de participação social. A busca por melhores tratamentos e acesso para todas as mulheres necessita ser constante. Milhares de mulheres sofrem todos os anos com as consequências de um câncer de mama diagnosticado em estágio avançado, e é dever de toda a sociedade transformar esse cenário. O Outubro Rosa é parte deste movimento, indo além do autoexame e diagnóstico precoce, e dando protagonismo para uma causa que é relevante em todos os estágios.

*André Mattar, diretor de oncologia do Hospital Pérola Byington

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