O impacto das mudanças climáticas na saúde

O impacto das mudanças climáticas na saúde

Felix Scott*

26 de julho de 2020 | 08h30

Restrições em massa ao movimento, comércio e atividade industriais – destinadas a retardar a pandemia de coronavírus – reduziram os níveis de poluição do ar em todo o mundo . Mas, uma vez que a pandemia tenha passado e a atividade econômica tenha sido retomada, voltaremos onde estávamos no que diz respeito a uma crise climática iminente, que futuramente poderá acentuar os desafios da saúde em todo o mundo.

Neste momento incerto, pode parecer inesperado trazer essa pauta para a discussão. Porém, cada vez mais nos deparamos com dados sobre o quanto o desequilíbrio ambiental reforça o surgimento de doenças, desafia os sistemas de saúde e acelera índices de mortalidade. Essas mortes podem ser causadas por ondas de calor ou frio intensos, o aumento de doenças transmitidas por insetos, como também o surgimento de câncer de pele à medida que a camada de ozônio diminui, além de consequências mais difíceis de medir, como transtornos mentais relacionados à migração forçada e ansiedade.

Para que se possa ter ideia desse avanço, uma criança nascida hoje experimentará um mundo quatro graus mais quente que a média pré-industrial, conforme indicou a revista cientifica The Lancet, em sua contagem regressiva de 2019 para a saúde e as mudanças climáticas. Esse efeito fará com que as mudanças no clima afetem de diferentes formas a saúde humana da infância até a adolescência, passando pela idade adulta, bem como a velhice.

Félix Scott. Foto: Acervo pessoal

Claramente, não é uma tarefa fácil medir os efeitos dessa mortalidade, principalmente pela dificuldade em avaliar os fatores de mudança climática na saúde, contra outras questões que também têm influência em nossas vidas, como a urbanização. No entanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou em 2018 que de 2030 a 2050, mais 250 mil pessoas morrerão em decorrência do impacto das mudanças climáticas, fortemente aceleradas devido às atividades humanas, como a queima de combustíveis fósseis.

Na prática, esse número inclui a morte de 38 mil idosos que sofrerão de exposição ao calor, 48 mil pessoas com quadros de infecção intestinal e diarreia, 60 mil de malária e mais de 90 mil crianças com desnutrição infantil. A OMS estima que tais efeitos das mudanças climáticas na saúde imporão custos de até US$ 4 bilhões por ano nesse período. Especialistas reforçam que essa colaboração é necessária para nos ajudar a entender os efeitos mais amplos do clima na saúde e talvez desenvolver estratégias para combatê-los.

Obviamente os resultados impressionam, especialmente, pois sempre imaginamos que as mudanças climáticas afetavam diretamente os vetores – como malária, dengue, doença de Lyme – mas, na realidade, quando analisamos a totalidade, existem muitos outros efeitos desse desiquilíbrio na saúde humana.

Com a experiência no trabalho de campo para análises de doenças infecciosas na África, Haiti e em outros lugares, equipes de especialistas em saúde da Sanofi puderam observar em primeira mão algumas das doenças mais afetadas pelas mudanças climáticas. Entre as que se enquadram nas iniciativas de saúde da empresa, estão a malária, dengue, tuberculose, asma e saúde mental.

A equipe dos programas de malária e tuberculose de saúde global da Sanofi dividiram os impactos na saúde, gerados pelo clima, em cinco categorias principais:

  • Alergias respiratórias e asma;
  • Doenças transmitidas por mosquitos e carrapatos, incluindo malária, dengue, febre do “Nilo Ocidental” e encefalite;
  • Doenças relacionadas à qualidade da água, como cólera, doença diarreica e criptosporidiose;
  • Migração forçada devido às mudanças climáticas, que podem favorecer epidemias de tuberculose e doenças disseminadas por falta de higiene e densidade populacional;
  • Impactos na saúde mental, geradas por eventos climáticos, como aqueles documentados entre populações de baixa renda após o furacão Katrina, ocorrido em 2005 na área de Nova Orleans (EUA).

Faz-se necessário reforçar que todo esse ônus recai desproporcionalmente sobre as regiões menos equipadas para lidar com isso, por conta de seus sistemas de saúde pouco tecnológicos, sofrendo imediatamente os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde.

Porém, tais dados das mudanças climáticas e os modelos de previsão atuais fornecem orientações essenciais no combate de doenças como a malária, que é transmitida pela fêmea infectada do mosquito Anopheles. Essas análises poderiam ajudar os tomadores de decisão em saúde nos países subsaarianos, por exemplo, a prever a estação das chuvas para implementar um programa de combate ao crescimento da doença.

Ainda assim, para defender um vínculo e, em seguida, orientar as ações futuras, a epidemiologia de uma doença precisa ser estudada ao longo de muitos anos e depois deve ser sobreposta com outros dados complementares, como critérios ambientais da qualidade do ar, por exemplo.

Essa é uma combinação de estudos epidemiológicos retrospectivos e os vincula à modelagem matemática no futuro. Reunir todos esses pontos exigirá que os pesquisadores colaborem entre as disciplinas. Isso inclui meteorologia, climatologia e matemática e pesquisa médica sobre lesões e fatalidades, saúde mental, doenças respiratórias e doenças infecciosas – para citar alguns.

A boa notícia é que, observando o impacto das mudanças climáticas na saúde humana, em todas as disciplinas e áreas, há um caminho que está começando a se desenvolver mesmo que ainda em formato inicial. Pensando nisso, uma atuação inovadora e proativa preservará não somente o planeta do futuro, mas nossas vidas de hoje e o bem-estar do amanhã.

*Felix Scott possui mais de 35 anos de experiência profissional, tendo trabalhado em diferentes setores e países e, na Sanofi desde 2009, assumiu em 2019 a missão de liderar os negócios da Sanofi Brasil, com foco em vacinas, cuidados especializados para doenças complexas e raras, medicamentos de prescrição e isentos de prescrição.

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