O impacto das desigualdades na educação paulistana

O impacto das desigualdades na educação paulistana

Malu Molina*

16 de novembro de 2020 | 07h30

Malu Molina. FOTO: DIVULGAÇÃO

Portões das escolas fechados, alunos longe das salas de aula, pais preocupados tentando conciliar as demandas do trabalho com as aulas on-line de seus filhos; enquanto os professores tentam se reinventar diante do novo modelo de aula digital. Com certeza, a pandemia atingiu e modificou a vida de todos. Mas nem todos foram afetados da mesma forma: mais uma vez os mais pobres sofrem mais. É preciso olhar para a educação que chega à periferia.

As adaptações necessárias nas redes particular e pública de educação para esse mergulho no mundo digital serviu para escancarar ainda mais as discrepâncias entre estas duas realidades. De acordo com a pesquisa TIC Educação 2019, quase 40% dos estudantes da rede pública de ensino não contam com internet em casa. Dois em cada três desses alunos sequer têm um computador de mesa em casa, o que impede o acompanhamento das aulas.

É claro que para tratar o problema da Educação não podemos focar apenas no caos atual. O Brasil foi considerado o segundo país mais desigual do mundo com relação à educação – e isso foi antes da pandemia. Em 2019, São Paulo tinha uma fila de espera para creche com cerca de 35 mil crianças, em que mais de 50% delas viviam em apenas 10 dos 96 distritos da capital, que ficam nas periferias. Estudos demonstram que quanto mais longe do centro da cidade, maior a dificuldade em conseguir uma vaga.

Temos que trabalhar pela reavaliação dos parâmetros para a escolha de beneficiados na distribuição de vagas nas creches, caso contrário, o problema seguirá sem solução. Não podemos considerar apenas quem mora mais perto, e, sim, quem mais precisa, como mães e pais solos e famílias de baixa renda. Esse também deveria ser o critério para a escolha de locais para construções de novas creches, focando em novas unidades nos bairros periféricos com maior demanda.

Outra prioridade é unir poderes executivo, legislativo e sociedade civil para que o Plano Municipal de Educação para 2025 seja cumprido. Lá está previsto, por exemplo, que 50% das escolas públicas da cidade operem em regime integral nos próximos 5 anos. Isso significa não apenas mais horas de permanência na escola, mas também a execução de um modelo pedagógico que coloque o aluno no centro da aprendizagem e o prepare para a vida, com disciplinas de projeto de vida que objetive o protagonismo juvenil. Hoje são apenas 146 das mais de 4 mil escolas funcionando nesse modelo.

Outra mudança para reduzir as desigualdades educacionais em São Paulo, é pautar a votação na Câmara dos Vereadores para que o “Programa de Transferência de Recursos Financeiros” para educação seja redistributivo de forma mais justa. Ao invés da mesma verba ser destinada para todas as escolas, nossa luta é para aquelas que mais precisam e as que estão correndo mais, receberem um investimento maior.

Um reforma administrativa para valorizar a carreira dos professores do município, deve ser prioritariamente pensada para os próximos anos junto aos educadores. Algumas propostas são: incentivos para formação continuada, gestão mais participativa e democrática nas escolas, e reconhecimento dos melhores professores. Hoje, o modelo de carreira favorece que ao se destacar, o professor seja promovido a diretor, ao invés de continuar compartilhando com os alunos conhecimento e experiência adquirida dentro de sala de aula.

Precisamos dos melhores professores nas escolas que mais precisam, para equalizar a qualidade da educação em todos os cantos da cidade. O pagamento de auxílio-aluguel para transferência e permanência dos melhores professores nessas regiões deve ser discutido, junto com a Secretaria Municipal de Educação. Muitos professores não vão para essas regiões por conta do tempo de deslocamento, acabam desistindo ou pedindo remoção. Mas uma pesquisa da Prefeitura demonstra que os professores escolheriam ficar nesses lugares se tivessem mais auxílio dentro de suas carreiras.

Quando falamos desse modelo que inclui creches e escolas com boa infraestrutura, mais horas de acolhimentos de crianças e adolescentes, com atividades que objetivem o desenvolvimento completo e complexo de cada aluno matriculado, falamos na possibilidade de equalizar o ponto de partida de todos. Uma política diferente é sim possível e esse caminho já está sendo construído.

Não podemos continuar tratando os desiguais como iguais, como se as diferenças não existissem. Nossa proposta é trazer a escola certa para a periferia, na qual as crianças aprendam, tenham um plano sólido para o futuro, que sejam ensinadas a sonhar, mas também a realizar. Nosso trabalho não se faz por outro caminho a não ser o que escolhe combater as discrepâncias sociais e garantir o direito à educação de qualidade com oportunidades iguais para todos e todas. Temos as propostas, temos as ferramentas, temos um sonho compartilhado. E sonho que se sonha junto, se torna realidade.

*Malu Molina é cientista política e ativista pela redução das desigualdades sociais

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