O impacto da negligência humana

O impacto da negligência humana

Renata Bento*

13 de fevereiro de 2019 | 12h00

Incêndio atingiu centro de treinamento do Flamengo. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Ainda não deu tempo de digerir emocionalmente toda situação dramática que ocorreu nos últimos dias em Brumadinho-MG. Centenas de pessoas morreram e outras tantas perderam tudo; os sobreviventes estão se deparando com a angústia e a dor em ter suas referências familiares e seus amigos afogados e enterrados sob a lama tóxica da negligência humana.

Para os que sobreviveram se sabe que essa tristeza vai precisar de muito tempo para ser elaborada. Por elaboração entende-se a capacidade psíquica que permite fazer a assimilação e o trânsito dos acontecimentos internos (dentro de cada um) e externos, (meio ambiente), trazendo algum conforto emocional para se permitir seguir em frente. Essa elaboração é própria dos adultos, com um ego coeso, isto é, a capacidade de pensar sobre as coisas de forma equilibrada, diferente das crianças que possuem ego incipiente ou iniciante.

Nas crianças o impacto é maior, elas ainda seguem em desenvolvimento e portanto merecem ainda mais atenção. A criança, diferente do que se supõe, tudo vê e tudo sente, apenas não possui a capacidade de compreensão que cabe a um adulto. Muitas vezes absorve em silêncio, para somente mais tarde se deparar com esse nó interno. Falo do aspecto emocional, do nosso mundo interno, que assim como as barragens, que na falta de manutenção, contenção adequada e atenção verdadeira se arrebentam misturando o bom e o ruim e principalmente arruinando tudo de bom construído à sua volta.

Depois do que ocorreu naquela cidade podemos pensar que existe no mundo de cada uma dessas pessoas uma história para ser contada, uma dor em busca de ressignificação, e isso será imensamente particular. No vazio de seu quarto, diante de uma dor coletiva imensurável cada um sentirá de modo singular seu próprio sofrimento. Essa dor precisa ser escutada, ou poderá se transformar em obstáculo, que atrapalhará se permitir continuar a viver de modo mais genuíno, apenas sobrevivendo. Como exemplo, a depressão, o pânico, entre outros distúrbios emocionais.

Mal secamos os olhos do choro sofrido e nos deparamos com uma tempestade que se abateu sobre o Rio de Janeiro que destruiu a cidade e mais uma vez matou pessoas e deixou outras tantas famílias desabrigadas e em risco; retrato novamente da indiferença e desapreço das autoridades com o que mais importa, o cuidado com a vida humana.

Em meio ao enterro dos entes queridos e limpeza da cidade que mais parecia com uma cidade fantasma, com lama por todos os lados, que, depois de seca virou poeira: túneis sem iluminação, árvores centenárias no chão; o descaso a céu aberto. Diante de tanta negligência é mais que perceptível que o sentido da vida esteja completamente pervertido.

No ditado popular costuma se dizer que ‘depois da tempestade vem a bonança’, isso para nos trazer esperança de que após situações difíceis venha surgir um tempo de sossego e felicidade. Mas na realidade não tem sido assim. Tem ocorrido uma sucessão de cambalhotas dramáticas estarrecedoras patrocinadas pela omissão.

Após a lama tóxica e a tempestade que afogou o Rio de Janeiro o fogo queimou vivo dez adolescentes que enquanto dormindo sonhavam com suas carreiras bem-sucedidas no futebol. Davam seu sangue e suor por um sonho que lhes custou a vida acreditando estarem sendo valorizados e cuidados. Ao que parece aqueles dez meninos de ouro, não tinham a menor ideia do valor que tinham como pessoa e como futuros atletas. Eles eram guiados pelo sonho, sem noção do desamparo e possibilidade de avaliação da realidade ao qual estavam submetidos.

Este desejo também experimentado nos sonhos diurnos, aquele que possibilita se encantar com a vida e se empenhar nos esforços para se alcançar os sonhos sonhados acordados foi interrompido novamente pelo descuido com a vida humana.

Novamente nos deparamos com a enorme impossibilidade das pessoas que estão no poder, em todas as esferas, públicas e privadas, valorizarem o nosso povo e consequentemente o cuidado e a segurança em todos os âmbitos.

A realidade sempre se impõe e tem sido tarefa difícil para os brasileiros constatar que na nossa pátria amada o respeito pelo humano assim como o reconhecimento das leis nunca estiveram tão fora de moda por aqui. É de se lamentar, não há lenço o suficiente para tantas lágrimas, a negligência impera. Tarefa complexa mas não impossível será a de enxugar os olhos e recuperar a crença no bom e a esperança na vida, tão importantes para seguir em frente.

*Renata Bento, psicóloga, especialista em criança, adulto, adolescente e família. Psicanalista, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Perita em Vara de Família e assistente técnica em processos judiciais. Filiada a Internacional Psychoanalytical Association, a Federación Psicoanalítica de América Latina e a Federação Brasileira de Psicanálise