O impacto da covid-19 na vida de pessoas com deficiência

O impacto da covid-19 na vida de pessoas com deficiência

Rejane Dias*

11 de março de 2021 | 08h00

Rejane Dias. FOTO: LULA MARQUES

A pandemia mudou o eixo do mundo, a lógica das coisas e os nossos hábitos. Nossa rotina foi alterada na tentativa de se preservar a vida e conter a transmissão de um vírus desconhecido. A Covid, por outro lado, abriu feridas sociais e deixou em evidencia a invisibilidade das pessoas com deficiência, algo que não é meramente novo pra elas. Se antes já haviam barreiras, elas foram reforçadas.

A maior parte das pessoas com deficiência no Brasil é considerada de baixa renda, quase sempre dependem de terceiros, como cuidadores, equipes de home care, utilizam equipamentos que precisam ser manipulados, ou por elas, ou por outras pessoas, constantemente. Pelo menos 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência. Isso representa quase 25% da população,

Em casos não mais isolados, essas pessoas ainda sofrem violência, negligência e abusos. Com a chegada da pandemia, esse cenário aprofundou ainda mais esses conflitos. E pouco tem sido feito para que haja a garantia de apoio às pessoas com deficiência, para protegê-las, sobretudo, quando muitas delas pertencem ao grupo de alto risco. As pessoas com deficiência sentem simplesmente que foram deixadas para trás.

Primeiro, nas políticas de apoio e auxilio às famílias que possuem pessoas com deficiências em casa, depois, pela não priorização integral dessa parcela da população nos grupos prioritários da vacina.

Se a pandemia, por um lado, acelerou as relações profissionais remotas, por outro, nos fez regredir em questões fundamentais para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

De acordo com dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), as pessoas com deficiência foram atingidas severamente pelo desemprego durante a pandemia. De janeiro a agosto de 2020, por exemplo, foram fechados 849 mil postos de trabalho formais no país, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Desse total, cerca de 20% (171,6 mil) eram ocupados por pessoas com deficiência. Na prática, o País demitiu no período 216 mil profissionais com deficiência, e contratou apenas 40 mil. Esse dado é importante porque revela que as empresas mais desligaram do que contrataram, invertendo a lógica inclusiva proposta pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência. A inclusão voltou a ser um dos maiores desafios dos tempos atuais.

Todos esses desafios serão a tônica da nova Comissão da Pessoa com Deficiência da Câmara  a qual terei a honra de presidir neste ano. Essa missão, sem dúvida, redobra a minha responsabilidade, uma vez que a luta pela inclusão das pessoas com deficiência, para mim, não é um discurso, é uma vida.  Sou mãe de uma menina com deficiência, e, em nome dela, tenho falado, ouvido, e sendo solidária a todos esses desafios.

É preciso acreditar que, fortalecer a cultura da inclusão é um processo longo, porém, de ação imediata, acontecerá de forma orgânica, porém contínua. E isso deverá ser função de todos, principalmente, de nós legisladores.  A pauta sobre os desafios das pessoas com deficiência precisa constar na ordem do dia, para que seja possível falar no Brasil em justiça social, inclusão e igualdade, com conhecimento de causa.

*Rejane Dias, deputada federal e presidente da Comissão da Pessoa com Deficiência da Câmara dos Deputados

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