O homem da JBS na Operação Carne Fraca

O homem da JBS na Operação Carne Fraca

Flávio Cassou, médico veterinário que a Polícia Federal afirma ser executivo do frigorífico, foi seguido, filmado, fotografado, grampeado e preso

Julia Affonso, Luiz Vassallo, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

18 Março 2017 | 05h15

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Foto: Reprodução

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A Operação Carne Fraca, que cercou os maiores frigoríficos do País, descobriu também a relação muito próxima da chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal, no Paraná, Maria do Rocio Nascimento, e o médico veterinário Flavio Evers Cassou, que a Polícia Federal afirma ser ‘executivo da JBS’. Ambos foram alvo de mandados de prisão preventiva. Segundo os investigadores da Carne Fraca, Cassou tinha ‘relação quase que societária com Maria’ e ‘reiteradamente agracia a estimada amiga com lotes de carnes, produtos e dinheiro’.

A PF chegou a filmar Cassou entrando na casa de Maria Rocio ‘com uma maleta, depois saindo e voltando com um isopor’. “De tão pesado, precisou de duas mulheres para carregá-lo”, destacou a PF, em relatório oficial.

A Carne Fraca fez um raio-x nos diálogos capturados entre Cassou e Maria do Rocio. No documento da PF, os investigadores apontaram que, desde o início das interceptações, os dois conversavam sobre ‘a entrega a ela de carnes, produtos alimentícios ou mesmo dinheiro, utilizando sempre ‘apelidos’ (balde, processo, dedos e luvas) para evitar falar diretamente a respeito do que seja pelo telefone’.

Para os investigadores, a partir da análise de uma série de diálogos grampeados, ‘fica claro que Flavio Evers Cassou leva produtos e dinheiro para Maria do Rocio’.

“Em 25 de janeiro de 2016, Maria do Rocio conversa com Mara Rubia Mayorka, a qual relata a perda de carnes que estavam em dois freezers que possuem em casa. A conversa é interessante porque dela se extrai a quantidade de carne que Maria do Rocio ‘pede’ e ‘ganha’ (certamente das empresas que favorece), como ela mesmo fala. Entretanto, mais interessante é a conversa que Maria do Rocio vem a ter com Flavio Evers Cassou, poucos dias depois de Mara Rubia lhe dizer que estão sem nada de carne em casa”, diz o documento subscrito pelo delegado federal Mauricio Moscardi Grillo.

Os investigadores apontam que Cassou foi à casa de Maria do Rocio. As imagens mostram o ‘executivo da JBS’ de óculos escuros e camisa azul, retirando um isopor do porta-malas do carro.

O veículo foi estacionado em frente ao vizinho de Maria do Rocio, segundo a PF. Em seguida, Flavio deixa a caixa de isopor na porta da garagem dela e duas mulheres a carregam para dentro.

“No dia seguinte à entrega, Flavio Evers Cassou e Maria do Rocio conversam descontraidamente e ele pergunta se ela teria gostado do ‘balde’ – código que usam para se referir ao que foi entregue – ao que Maria responde para ele não se preocupar ‘que todo mundo gostou do balde’. Por vezes, Flavio Evers Cassou chega a ser explícito, dizendo que está mandando ‘coxinhas’ para a irmã de Maria, porém, com relação a dinheiro, preferem manter o uso de códigos.”

Em outra conversa capturada pela PF, Cassou pede para avisar à irmã de Maria do Rocio que ele mandaria as ‘coxinhas dela’, uma ‘caixinha de isopor com 20, 40 coxinhas’. Para a PF, o diálogo confirma que ‘Maria assina certificados para Flávio em troca de produtos da empresa Seara – neste dia, os produtos dados em pagamento foram coxinhas de frango’.

Dinheiro. Às 17h06 do mesmo dia, segundo a PF, a então chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal, no Paraná, confirma o recebimento dos ‘dedos’ que Flavio pôs embaixo dos certificados, tendo conferido e contado ‘tudo certinho’.

“Os já robustos indícios de que Flavio Evers Cassou entrega dinheiro à Maria do Rocio foram confirmados quando da greve dos bancos. Em 8 de setembro de 2016, em plena greve dos bancos, Cassou liga para o Bradesco”, relata a Federal.

“E se precisar de dinheiro como é que eu faço”, pergunta o executivo médico veterinário à funcionária do banco.

“Só no caixa eletrônico, nosso caixa tá fechado”, ela responde.

“Daí eu não sai, eu preciso de trinta paus”, ele diz.

“Pior que não sai, tamo morto esse ano”, retorna a funcionária.

No mesmo dia, Cassou fala com Maria do Rocio e afirma que está levando ‘os documentos’ dela, porém o dos outros não, pois ‘está tudo parado’.

“Sabe-se que Maria do Rocio foi colega de faculdade de Flavio Evers Cassou porém, o relacionamento de ambos demonstra claras práticas de corrupção, com Maria do Rocio beneficiando a empresa em que Flavio Evers Cassou trabalha – assinando certificados feitos pela própria empresa, sem qualquer fiscalização efetiva -, mediante contraprestação financeira ou em produtos”, destaca a PF.

COM A PALAVRA, A JBS

A assessoria de imprensa da JBS informou, por telefone, que o comunicado enviado pela companhia representa todas as empresas do grupo. Entre empresas investigadas pela Operação Carne Fraca estão algumas de propriedade da JBS, como a Seara e a Big Frango.

COMUNICADO JBS

Em relação a operação realizada pela Polícia Federal na manhã de hoje, a JBS esclarece que não há nenhuma medida judicial contra os seus executivos. A empresa informa ainda que sua sede não foi alvo dessa operação.

A ação deflagrada hoje em diversas empresas localizadas em várias regiões do país, ocorreu também em três unidades produtivas da Companhia, sendo duas delas no Paraná e uma em Goiás. Na unidade da Lapa (PR) houve uma medida judicial expedida contra um médico veterinário, funcionário da Companhia, cedido ao Ministério da Agricultura.

A JBS e suas subsidiárias atuam em absoluto cumprimento de todas as normas regulatórias em relação à produção e a comercialização de alimentos no país e no exterior e apoia as ações que visam punir o descumprimento de tais normas.

A JBS no Brasil e no mundo adota rigorosos padrões de qualidade, com sistemas, processos e controles que garantem a segurança alimentar e a qualidade de seus produtos. A companhia destaca ainda que possui diversas certificações emitidas por reconhecidas entidades em todo o mundo que comprovam as boas práticas adotadas na fabricação de seus produtos.

A Companhia repudia veementemente qualquer adoção de práticas relacionadas à adulteração de produtos – seja na produção e/ou comercialização – e se mantém à disposição das autoridades com o melhor interesse em contribuir com o esclarecimento dos fatos.

São Paulo, 17 de março de 2017.

COM A PALAVRA, A JBS – 2

Sobre a operação da Polícia Federal, a JBS esclarece que qualidade é a sua maior prioridade e a razão de ter se transformado na maior empresa de proteína do mundo. A JBS exporta para mais de 150 países, como Estados Unidos, Alemanha e Japão. É anualmente auditada por missões sanitárias internacionais e por clientes.

No Brasil, há 2.000 profissionais dedicados exclusivamente a garantir a qualidade dos produtos JBS e das marcas Friboi e Seara. Todos os anos, 70 mil funcionários têm treinamento obrigatório nessa área.
No despacho da Justiça, não há menção a irregularidades sanitárias da JBS. Nenhuma fábrica da JBS foi interditada. Ao contrário do que chegou a ser divulgado, nenhum executivo da empresa foi alvo de medidas judiciais. Um funcionário da unidade de Lapa, no Paraná, foi citado na investigação. A JBS não compactua com desvios de conduta e tomará todas as medidas cabíveis.

Por fim, a JBS reforça seu comprometimento com a qualidade de seus produtos e reitera seu compromisso histórico com o aprimoramento das práticas sanitárias.

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