O home office em tempos de covid-19: desafios e tendências para um novo jeito de morar e trabalhar

O home office em tempos de covid-19: desafios e tendências para um novo jeito de morar e trabalhar

Leonardo Schneider*

05 de julho de 2020 | 04h45

Leonardo Schneider. Foto: Divulgação

O contexto mundial em relação a pandemias traz uma experiência nova para o século XXI.  Sistemas de saúde e governos debatem a respeito da proteção da economia em detrimento da preservação da saúde dos cidadãos, em debates nada profícuos em direção ao controle do avanço do COVID-19 pelo mundo. Nesse contexto existe também a responsabilidade individual, caracterizada pelos apelos feitos aos cidadãos para que não transitem, tendo em vista que muitos portadores do vírus COVID-19 são assintomáticos e podem contaminar dezenas de outros indivíduos.

Entende-se que em uma situação pandêmica, na qual todos se tornam, em  diferentes níveis, vulneráveis, são necessárias estratégias que protejam a coletividade, mesmo que elas estejam em detrimento da proteção individual. Nesse contexto, quais seriam os limites dessa necessidade de proteção da sociedade como um todo? Como fica a economia?

A economia está passando por uma crise resultante da pandemia, que em caso de circulação de pessoas e aumento da curva de contágio, levará um tempo ainda maior para ser superada. Países que adotaram o lock down como a China foram mais rápidos em retomar as atividades e reduzir o contágio. Sendo assim, a solução para a economia e para saúde é o isolamento social.

No entanto, o isolamento social evidencia também as desigualdades existentes em todo o mundo, a começar pela sua adoção. Nem todos os profissionais consegue adotar o isolamento, sobretudo em países em desenvolvimento. Tais países são caracterizados por relações de trabalho precárias, com índices elevados de trabalhadores terceirizados e informais. São indivíduos que precisam trabalhar diariamente para obter recursos suficientes para o custeio de suas necessidades e que, diante da ausência de políticas públicas de proteção social que lhes contemplem, vivem em condições de escassez e de sofrimento. Soma-se a esse contexto a precariedade das moradias em áreas de periferia, com poucas condições de saneamento básico e infraestrutura.

Mesmo entre indivíduos que possuem emprego formal as possibilidades de existência durante a pandemia são desiguais. Em um artigo publicado no jornal Washington Post publicado no dia 26 de maio e intitulado Frustrated and struggling, New Yorkers contemplate abandoning the city they love, os autores Richard Morgan e Jada Yuan discutem a rotina de moradores de diferentes regiões de Nova Iorque em relação ao isolamento social. A cidade é caracterizada por um grande números de apartamentos pequenos, com cerca de 30m2, muitos deles com lavanderias compartilhadas. E a rotina dos trabalhadores que residem nesses imóveis é descrita pelos autores como repleta de constrangimentos e transtornos, como as filas na lavanderia em horários de home office.

A partir do fim da década de 1990, começou a ocorrer uma mudança no perfil de moradia nas áreas urbanas. Trabalhadores mais jovens passaram a dispensar o uso de carros para locomoção até o trabalho em troca de uma qualidade de vida associada a residir em moradias próximas ao ambiente laboral. Para custear essa mudança de vida, tendo em vista os elevados valores dos aluguéis nas metrópoles, o mercado imobiliário ampliou a oferta de espaços de coliving e flats, que são espaços com áreas menores e custos acessíveis. No entanto, nem o mercado imobiliário nem os trabalhadores poderiam prever uma pandemia que os obrigaria ao confinamento em espaços minúsculos.

Embora pareça confortável trabalhar em um sistema home office, com todos os benefícios de estar em casa e não enfrentar o trânsito até o trabalho, muitos profissionais não se adaptaram ao isolamento. Em um estudo realizado pela empresa Cushman & Wakefield a respeito da adaptação ao home office, que contou com 40.000 participantes em todo o mundo, foram identificadas dificuldades de adaptação associadas a diferentes variáveis. A principal dela está associada a aspectos estruturais e ergonômicos, tendo em vista que nem todos profissionais possuem um escritório em casa, cadeiras e móveis que ofereçam conforto e internet rápida o suficiente para a atividade laboral.  Além disso, o trabalho em casa requer uma grande habilidade em administrar as multi funções e papéis de uma vida contemporânea em tempos de pandemia, como cozinhar, lavar e passar as roupas, cuidar das crianças, faxinar, etc.

Embora existam dificuldades como a supracitada, não foi identificada redução na produtividade profissional durante a pandemia. Aqueles que eram produtivos assim se mantiveram e o foco individual não sofreu alterações.

Muitos profissionais possuem a expectativa de permanecerem em home office após a quarentena, acreditando que os processos institucionais não foram prejudicados em função do trabalho remoto e geraram, inclusive, redução nas despesas com internet e energia elétrica. Muitas empresa já inclusive já anunciaram esse formato ate o final do ano independente da evolução da pandemia.

Indivíduos mais jovens apresentaram maiores dificuldades de adaptação ao home office, em consequência da limitação dos espaços de sociabilidade. Os escritórios também ajudam a construir laços de amizade e afeto. Trabalhadores casados costumam ter esses laços mais estreitos com suas famílias e gostam de retornar cedo para suas casas para estar com seus filhos. O mesmo não ocorre com os mais jovens, que buscam nas relações construídas no trabalho e em espaços de sociabilidade externos o vínculo afetivo.

A grande realidade é que a evolução do mundo digital reduziu as fronteiras físicas proporcionando uma alta capacidade de estar conectado com o mundo, não importando aonde você esteja. Basta ter um celular e alguns aplicativos que  poderá estabelecer sua interação com empresas, consumidores, prestadores de serviços, amigos e sua família nessa relação virtual.

Entende-se, nesse sentido, que o escritório não se tornou obsoleto. Ele cumpre a função de reunir os profissionais de maneira alinhada com a cultura da empresa, construindo um clima organizacional profícuo ao desenvolvimento de ideias por meio da troca de experiências. No entanto, ele não será mais concebido como um local de trabalho, mas como um espaço vinculado a uma rede maior, na qual estão o escritório, os trabalhadores remotos e relações virtuais. Esses espaços serão integrados  e funcionarão de acordo com a conveniência da empresa e de seus empregados. Esse novo modelo de trabalho resultará também em um novo tipo de profissional, com características autogerenciáveis e autônomas e maior conexão entre a sua prática laboral e outras esferas de sua vida.

*Leonardo Schneider é economista especializado em Administração e Gestão, vice-presidente do Secovi Rio, diretor da APSA e conselheiro da FBN Brazil.

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