‘O governo precisa de Angra 3, nós não’, reage empreiteiro a pedido de redução de preço das obras

‘O governo precisa de Angra 3, nós não’, reage empreiteiro a pedido de redução de preço das obras

Trocas de e-mails de executivos que se organizaram em cartel para fraudar a licitação da usina revela como o grupo lidava com a tentativa da Eletrobrás de diminuir o preço da licitação de R$ 3 bilhões

Redação

14 de setembro de 2015 | 05h45

Por Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo

Obras de usina Angra 3, alvo da Lava Jato/ Foto: Fabio Motta/AE

Obras de usina Angra 3, alvo da Lava Jato/ Foto: Fabio Motta/AE

E-mails encaminhados pela Camargo Corrêa ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) revela como os empreiteiros encaravam as negociações com a Eletronuclear sobre os preços das licitações de Angra 3, obra investigada na Lava Jato por suspeita de cartel e pagamento de propinas a funcionários públicos. Ao serem informados do pedido de dirigentes da estatal para negociar um desconto no preço de R$ 3 bilhões dos dois pacotes de obras divididos por sete empreiteiras – Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão, Odebrecht, Camargo Corrêa, Techint, EBE e UTC – o grupo reagiu fortemente.

“O governo precisa urgentemente de Angra 3. Nós enquanto empresários não. Ele (Valter Luiz Cardeal, diretor de geração da Eletrobrás que queria desconto de 20% no preço da licitação) vai ameaçar, vai nos desqualificar como empresas, enfim virá cheio de impropérios e nós com cara de paisagem, sem cair na cilada que ele está armando para nós”, afirmou o então diretor comercial de Energia da Camargo, apontado no acordo de leniência como Luiz Carlos, em e-mail encaminhado para outros executivos. “Perfeito, nada de entrar na onda do LS (Luiz Soares, diretor da Eletronuclear escalado por Valter Cardeal para negociar com os empreiteiros)”, respondeu o diretor Superintendente da UTC Antônio Carlos Miranda A cobrança da Eletrobrás, estatal da qual a Eletronuclear é subsidiária, veio após serem divulgados os resultados dos vencedores dos dois pacotes de obras de Angra 3, quando os empreiteiros já negociavam a fusão dos dois consórcios vencedores em um só.

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A partir daí, representantes dos dois consórcios, UNA 3 (Odebrecht, Andrade Gutierrez, UTC e Camargo Corrêa) e Angra 3 (Queiroz Galvão, EBE e Techint), que posteriormente se fundiriam no consórcio Angramon para dividir as obras da usina, se reuniram e decidiram como responder às demandas da estatal. Os empreiteiros decidiram mandar um estudo apontando a possibilidade de desconto de 3,94% no preço dos dois pacotes e que estariam dispostos a dar o desconto total de 6% no caso da fusão dos consórcios.

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O próprio edital da licitação previa que, em caso de fusão dos consórcios vencedores, deveria haver um desconto de 6% só que, além disso, os dirigentes da Eletrobrás e da Eletronuclear cobravam uma redução maior no preço. Isso porque chamou a atenção da estatal o fato de que cada um dos pacotes vencedores foi vencido por um preço 4,98% maior que a proposta inicial da Eletronuclear, sendo que o edital previa um limite máximo de 5% acima do valor estipulado pela estatal.

Inicialmente, houve a cobrança de redução de 20% no preço, considerando os 6% do edital mais 14% “negociáveis”, mas Cardeal, diretor da Eletrobrás, recuou e em 7 de abril de 2014 pediu aos executivos o desconto de mais 4% além dos 6% previstos no edital. “Sua santidade me procurou, eu não retornei…fiquei sabendo que ele está querendo 6% + 4% AG (Andrade Gutierrez) e QG ( Queiroz Galvão) disseram não. Roque (Augusto Roque, diretor de Odebrecht Energia que representa a empreiteira no consórcio de Belo Monte) foi abordado também, disse que este assunto é contigo e Fábio.”, afirmou Luiz Carlos, da Camargo Corrêa, em e-mails aos outros empreiteiros.

“Quer cancelar….minha opinião: se é desejo dele, que cancele. Belo Monte está caminhando na mesma direção”, seguiu Luiz Carlos.

Ao final da negociação com a estatal, os empreiteiros acabaram conseguindo firmar o contrato com a Eletronuclear e criar o consórcio Angramon, responsável pelos dois pacotes de obras. Os esforços dos dirigentes da estatal, contudo, não surtiu efeito e foi concedido apenas o desconto de 6% previsto no edital em caso de fusão.

Quando procuradas sobre o acordo de leniência da Camargo Corrêa com o Cade, no começo do mês, as empreiteiras citadas no esquema negaram irregularidades e evitaram comentar sobre o acordo.

COM A PALAVRA, A QUEIROZ GALVÃO:

“A Queiroz Galvão acredita na idoneidade de todos os seus executivos e reafirma seu compromisso com a ética e a transparência. A companhia nega qualquer pagamento ilícito a agentes públicos para obtenção de contratos ou vantagens e reitera que todas as suas atividades seguem rigorosamente à legislação vigente”.

COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ:
Por meio de sua assessoria a empreiteira informou que não vai se manifestar sobre o caso

COM A PALAVRA, A EBE:

“A EBE Não tem nenhum executivo envolvido neste processo que está sendo apurado e nem pagou nada a ninguém. Apesar da desistência de algumas empresas do Consórcio Angramon, continuamos no firme propósito de manter o contrato assinado para a montagem de Angra 3. A EBE montou sozinha a Usina Nuclear de Angra 1 e fez parte do consórcio de empresas que montou Angra 2. A empresa tem larga experiência no setor nuclear e continua com o objetivo de honrar o contrato assinado para Angra 3.”

COM A PALAVRA, A TECHINT:

“A Techint Engenharia e Construção reitera que segue padrões internacionais de governança e observa estritamente a legislação brasileira.”

COM A PALAVRA, A ODEBRECHT:

“A Construtora Norberto Odebrecht informa que nunca participou de cartel para contratação com qualquer cliente público ou privado. A empresa não teve acesso a documentação constante do referido acordo e se manifestará nos autos do processo tão logo tenha acesso às informações em sua integralidade.”

COM A PALAVRA, A UTC:

A empreiteira informou via assessoria de imprensa que não vai se manifestar sobre o caso.

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