O gosto pela brincadeira como aliado na mudança de hábito em crianças

O gosto pela brincadeira como aliado na mudança de hábito em crianças

Maíra Lot Micales*

24 de janeiro de 2021 | 04h30

Maíra Lot Micales. FOTO: DIVULGAÇÃO

Todos que já tentaram mudar algum hábito devem saber o quão difícil isso pode ser. Melhorar a alimentação para ter uma dieta mais saudável, parar de fumar, etc. Deixar esses e outros velhos comportamentos para trás pode exigir um esforço emocional imenso de qualquer adulto, que deve estar mentalmente preparado para a transformação. O que dizer então de uma criança? Transformar a mudança em um processo lúdico e divertido pode ser a chave para ajudá-las.

É um fato que cada criança tem a sua velocidade de aprendizado. Nós, adultos, devemos respeitar esse ritmo, observá-las, identificar o momento em que estarão preparadas para um novo salto. Entretanto, também é verdade que especialistas em pediatria recomendam determinadas idades e momentos para a mudança de alguns comportamentos infantis.

Por exemplo, o desfralde, quando a criança deixa de usar fraldas para conter o xixi e o cocô. Gilda Porta**, presidente do Departamento Científico de Hepatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, afirma que o amadurecimento para o desfralde começa a partir dos 18 meses de idade. O reconhecimento da vontade de fazer suas necessidades começa por volta dos 2 anos e o processo de assumir completamente o controle de suas funções fisiológicas pode se estender até os 4 anos de idade.

Já o odontopediatra Daniel Korytnicki**, especialista em odontologia infantil pela Universidade de Michigan, recomenda que as crianças abandonem a chupeta até os 2 anos de idade. Manter o hábito após essa idade pode dificultar o alinhamento dos dentes em desenvolvimento, causar alterações no formato do céu da boca ou até promover o crescimento inadequado do maxilar.

Mais uma vez, é importante ressaltar que esses são parâmetros gerais. Os mesmos especialistas também defendem que não respeitar o ritmo de desenvolvimento individual da criança pode causar traumas futuros e dificuldades emocionais. No entanto, a aproximação de cada uma dessas fases exige o estímulo dos pais e responsáveis para a mudança de comportamento.

Mais do que afeto, tolerância e paciência, o processo exigirá que o adulto conquiste a confiança da criança para alcançar o seu comprometimento. É neste momento que transformar toda a jornada em uma grande brincadeira ou uma narrativa a ser lida faz toda a diferença. Como mãe, atravessei esses mesmos processos com os meus filhos. Já como editora, transferi essa ideia para a criação de uma coleção chamada Crescidinhos, da editora Caminho Suave. A ideia de aliar histórias divertidas aos momentos-chave de transição das crianças atende a essa nossa necessidade instintiva de brincar e jogar.

De fato, carregamos esse gosto pelo lúdico durante toda a vida. A gamificação (método de aplicação das mecânicas de jogos eletrônicos para engajar, motivar ou educar em situações da vida real) está aí para nos provar. São inúmeros os recursos eletrônicos para tornar mais atraentes aquelas tarefas chatas do dia a dia, pois, seja qual for o seu objetivo, uma ferramenta eletrônica estará disponível para tornar tudo mais estimulante.

Para as crianças pequenas, ainda não plenamente inseridas em um universo digital, as cantigas, versinhos, jogos motores para coordenação e outros métodos substituem as ferramentas dos adultos. Nesse ponto, os livros são aliados de primeira ordem para as fases de transição. São muitos hoje disponíveis para cada fase da criança: desfralde, deixar de chupar o dedo, controlar a raiva etc. Uma volta pela livraria pode surpreender.

A livroterapia, como costumo chamar – utilização dos livros como instrumento de ajuda – ainda traz de bônus o incentivo à leitura, fundamental para a educação de qualquer criança. Acredito veementemente que pais, cuidadores e educadores devem lançar mão de livros divertidos e instrutivos para passar uma boa mensagem às crianças, a fim de conseguir sua colaboração em momentos como o de “se lembrar de ir ao banheiro”. A eficiência é impressionante. Recebo muitas mensagens e leio avaliações em sites de vendas de livros on-line sobre como as obras ajudaram no desfralde, no processo de abandonar a chupeta ou em deixar a criança mais calma em momentos de nervosismo.

A despeito desses recursos, é sempre importante a consulta a um especialista, principalmente para as crianças que apresentem maior resistência à mudança. Lembre-se de que os primeiros dias serão os mais críticos. Nos momentos de birra, respire fundo e afirme para si mesmo que está ajudando a criança a se libertar de um hábito que a prejudicará no futuro. Celebre cada conquista do seu filho para motivá-lo e, o mais importante, faça com que ele se divirta, pois você acabará se divertindo também.

*Maíra Lot Micales é publisher da Editora Edipro e autora dos livros infantis Cocô, Xixi e Pum e Careta pra chupeta

**Os especialistas citados no artigo são autores de guias pediátricos das publicações infantis da coleção Crescidinhos do Grupo Editorial Edipro.

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