O Giannotti que conheci

O Giannotti que conheci

José Renato Nalini*

12 de agosto de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A partida do filósofo José Arthur Giannotti no último dia 27 de julho foi sentida na academia, na filosofia, na política e na intelectualidade. Várias manifestações chegaram à mídia, todas enaltecendo a figura do pensador que marcou seu nome na história do Brasil, como formulador de concepções engenhosas da democracia e da política. FHC escreveu algo como “Morrer é sempre desagradável”.

Numa entrevista concedida em outubro de 2019, ele foi provocado a comentar o ensaio de Michel de Montaigne, intitulado “Filosofar é aprender a morrer”. Giannotti respondeu rápido: “Ninguém aprende a morrer. A gente sabe que vai acontecer, mas é como um raio que cai do céu”. Já no encerramento do encontro, diante das crises que se avizinhavam, ele afirmou: “Não gostaria de morrer sem que alguma luz se abrisse nesse túnel”.

Talvez haja uma tímida e bruxuleante lamparina a sustentar o fiapo de esperança dos brasileiros em seu País, aquele em que “se plantando, tudo dá”, até as falaciosas audácias delirantes do obscurantismo e do retrocesso.

Mas Giannotti merecerá muitos outros necrológios e elogios por sua obra. Escreveu “Trabalho e Reflexão”, “Certa Herança Marxista”, “Os limites da política”, “Heidegger/Wittgnstein – Confrontos”. Considerava a política uma atividade relacionada à guerra. Naief Haddad, que escreveu “A força revolucionária do livre pensar” (FSP, 1º.8.2021), observa que, para José Arthur Giannotti, a política seria “a contenção da guerra, o momento em que você vê seu outro não mais como inimigo, mas como adversário”. Algo a impor reflexão sobre o Brasil de nossos dias: o pensar diferente já faz do adverso um inimigo, não mais alguém cuja opinião deve ser respeitada.

A visão de Giannotti sobre a política era muito lúcida: “Em uma democracia, uns ganham, outros perdem. Mas os perdedores não vão colaborar com a execução das tarefas dos vencedores: se eles puderem, vão puxar o tapete, isso é normal. A democracia não exclui o conflito. Vou usar uma palavra entre aspas, a democracia “civiliza” o conflito. Ora, o que temos hoje, em algumas partes do mundo é a política como incentivo ao conflito”. Por isso “a única coisa que podemos fazer é começar a democracia em casa, com nossos amigos, no nosso trabalho e daí por diante. Criando um ambiente de generosidade que não permita a violência como forma de governar”.

O Giannotti que eu conheci entre 60 e 70, era o marido da poeta Lupe Cotrim Garaude, aquela beleza de olhos verdes, ambos frequentadores da Fazenda “Campo Verde”, de Dulce e Victor Geraldo Simonsen. Experiência que nunca mais se repetirá, pois era um mix de experimento social, ecológico e cultural. Mereceria uma tese em sociologia, para comprovar que a vocação de Roberto Simonsen para o empresariado solidário, muito antes de se pensar em “responsabilidade social”, foi observado por seu filho caçula.

Minha juventude não propiciou valer-me do intelectual. Mas privei de muitos encontros em que aprendia com o diálogo entre os maiores. Lupe era uma das “filhas afetivas” dos Simonsen, foi acometida de câncer e tinha consciência da gravidade de seu estado. Numa noite leu o poema “Aceitarei a velhice”, brado a favor da vida que se extinguia. Ouvidos atentos, em torno à lareira, além do aplauso, o silêncio constrangedor.

Ela morreu em Campos do Jordão, numa exuberante juventude. Giannotti colocou-a no assento do passageiro, afivelou-lhe o cinto de segurança e dirigiu até São Paulo, para só então cuidar de velório e sepultamento.

A morte de Victor Simonsen encerrou uma era. Foi-se a Fazenda “Campo Verde” e os sonhos que a habitavam. Permaneceram no jardim das memórias, do qual só cada um tem a respectiva chave.

Recentemente, Júlio Medaglia convidou Giannotti para falar durante uma das sessões virtuais da Academia Paulista de Letras e ele aquiesceu. Falamos brevemente e ele se recordou a áurea fase campoverdiana. Cheguei a convidá-lo a ingressar na APL, desde que fosse sua vontade. Respondeu-me que “estava muito velho”.

Na semana em que morreu, telefonou-me. Fiquei contente com a lembrança, pensando que ele revira sua negativa. Mas era engano. O celular permite que façamos ligações inesperadas, pois a bugiganga é muito sensível aos nossos dedos.

Brinquei com ele: – Só assim para você me telefonar! Ele respondeu que era um prazer e que depois retornaria a ligação, então sim, para conversarmos.

Não houve tempo. Ele agora faz parte da crescente galeria dos vultos admirados e queridos que permanecerão enquanto alguém se lembrar deles com o carinho que um José Arthur Giannotti merece.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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