O general das sombras: terrorista ou mártir?

O general das sombras: terrorista ou mártir?

Walter Fanganiello Maierovitch*

04 de janeiro de 2020 | 14h42

Wálter Fanganiello Maierovitch. Foto: Divulgação

Terrorista, estrategista ou mártir? Ano de 2008. O famoso general americano David Petraeus mandou os seus 007 convidar para um encontro o general iraniano Qassen Soleimani. Pouco tempo depois chegou um ‘SMS’ no celular de um oficial iraquiano próximo a Petraeus.

A mensagem, arquivada no Pentágono, dizia o seguinte a Petraeus: “O senhor sabe que eu, general Qassen Soleimani, controlo a política do Irã para o Iraque, para o Líbano, Gaza e Autoridade Palestina. O embaixador em Bagdá é da Força Quds e o substituto que assumirá também é da Força Quds, e meu subordinado”.  Com o SMS ficava indicado a Petraeus os interlocutores.

Soleimani, nascido em 1957 e na província de Karmand, comandava a Força Quds, que atua no exterior como o braço dos Guardiães da Revolução Iraniana ( Pasdaran): a guarda Pasdaran foi criada pelo aiatolá Khomeini, então líder supremo do Irã, para defender a revolução e controlar o Estado.

Quando morto em razão do “raid USA”, Soleimani se identificava no Iraque como consultor. Na verdade, ele comandava e ditava, para o Oriente Médio, a geopolítica e a geoestratégia iranianas. No sul do Líbano, nos anos 90, treinou e armou o hezbolah. Ganhou fama. Foi sua a iniciativa do partido político Hezbollah contar com força armada. Ele deu sustentação bélico-militar à permanência da ditadura de Assad na Síria: o ditador sírio lidera uma minoria alauita, de raiz xiita.

Qassim Suleimani. Foto: Iranian Supreme Leader via AP

O general iraniano, que sabia trabalhar com informações e contra-informações montou milícias com atuações no Iraque e Iêmen, seguindo o modelo que implantou para o libanês hezbolah . Até a Primavera Árabe, Qassem Soleimani atuava fora do Irã e em atos terroristas. Combateu a Al Qaeda e o Isis por serem sunitas. Quanto ao combate com o Isis, jogou de mão com os norte-americanos, numa aliança decorrente de interesses coincidentes.

A autorização para matar Soleimani dada por Trump provoca, no Irã, o enfraquecimento do moderado presidente Hassan Rohani. Por outro lado, dá força extra ao aiatolá Khamenei, que sonha com a saída americana do Oriente Médio e expansão da influência xiita iraniana, com pressões sobre a sunita Arábia Saudita e Israel, inimigo declarado.

Em fevereiro de 2009, o aiatolá Khamenei outorgou a Suleimani a comenda da ordem de Zolfaghar. É a mais importante e nunca havia sido outorgada a um militar . No discurso oficial, Khamenei disse ao general Soleimani para morrer como mártir”.

*Walter Fanganiello Maierovitch, jurista e professor de Direito Penal

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