O ganho do Brasil ao abrir as portas para venezuelanos e refugiados

O ganho do Brasil ao abrir as portas para venezuelanos e refugiados

João Marques da Fonseca*

14 Novembro 2018 | 05h00

João Marques da Fonseca. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fome. Este é um dos motivos determinantes para que muitos venezuelanos migrem de seu país de origem, sem olhar para trás. A crise econômica e política que assola a Venezuela tem deixado a população local em estado de miséria. Neste cenário, recomeçar a vida em outra nação tornou-se o sonho de grande parte da população, quiçá de todos.

Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) revelam que bem mais de um milhão de pessoas saíram da Venezuela nos últimos três anos. E o Brasil, foi um destes países que abriram as portas para este povo sofrido. Só em 2017, cerca de 70 mil venezuelanos adentraram em regiões brasileiras, aponta a Polícia Federal.

Porém, mesmo com esta “abertura” brasileira, infelizmente, apenas uma pequena porcentagem da população se engajou realmente na causa dos venezuelanos. A recepção hostil dos brasileiros já virou notícia em todo o mundo. Isso deve-se ao fato do nosso País ser mentalmente fechado, tanto para a imigração quanto para o refúgio.

E os números não mentem. Basta analisarmos a quantidade de imigrantes que ocupam o Brasil. No ano de 1900, nossa nação contava com 1,1 milhão de estrangeiros, enquanto a população brasileira era de apenas 17,4 milhões de pessoas, ou seja, 6,6% do total. Se voltarmos para 1890, por exemplo, esse percentual era de quase 50%.

Já em 2017, os imigrantes somavam 900 mil, enquanto os brasileiros já eram 207,7 milhões, segundo informações do Guia Prático “Nova Lei de Migração – Inovação e Riscos Empresarias”, publicado pela Rede Brasil do Pacto Global, em parceria com a EMDOC, consultoria de mobilidade global. Portanto, mesmo com o passar dos anos, não evoluímos neste sentido. A população aumentou, mas a imigração desmoronou.

E acredito, que esta visão precisa mudar. Primeiramente, vale ressaltar que, no caso dos venezuelanos ou refugiados, vir ao Brasil não é uma escolha. Muitos deixam as suas casas, família e bens para trás, em busca de uma oportunidade de sobrevivência. Ninguém está procurando uma vida melhor. Eles buscam apenas a vida!

Disseminar a relevância de recebermos os refugiados em nosso País pode ser uma forma de entender melhor este status. O Brasil nunca passou por uma guerra, talvez este seja um ponto que não nos permite sentir na pele o sofrimento daqueles que convivem neste panorama. Receber os venezuelanos é uma forma de mesclarmos culturas e de agregar valor à nossa nação.

Se pararmos para analisar, o espanhol, língua nativa dos venezuelanos, é falado em mais de 135 países do mundo. Depois do inglês, é o idioma mais predominante e, por isso, exigido em muitas vagas de emprego. Que tal aproveitarmos a permanência destes imigrantes no Brasil, para aprendermos uma nova linguagem? As escolas brasileiras ofereceriam um ensino extremamente mais profundo se contassem com professores nativos, que conseguissem trazer para os alunos não só um novo dialeto, mas também uma nova cultura.

Muitos não sabem, mas grande parte da população venezuelana que aqui chega, tem ensino médio completo e até mesmo nível superior. Sem falar que grande parte desse público tem qualificação em engenharia de Óleo e Gás, atividade que o Brasil importa mão de obra há muitos anos. Eles contam com um quantitativo grande de profissionais nestas áreas, e essa proficiência é reconhecida mundialmente. Poderíamos aproveitar esta entrada, para aperfeiçoar os nossos serviços nesses setores, não é mesmo?

Vale dizer que se o Brasil quer fazer negócios com outros países, o que é extremamente recomendado, conhecer e interagir com diferentes culturas facilitaria o diálogo entre as nações. Países como os Estados Unidos, Canadá e Austrália já apostam nessa atitude, o que agrega diversos benefícios para os locais.

Os refugiados são pessoas que querem viver, lutam pela vida. Eles têm anseio por reconstruir a sua história, força de vontade, além de dedicação e competência. Como prova disso, temos nomes de refugiados que são reconhecidos pelas suas benfeitorias no Brasil e no mundo, como Albert Einstein.

Na lista dos 150 bilionários brasileiros, dez deles não nasceram no País. Muitos são refugiados, que chegaram ao Brasil, se naturalizaram e construíram os seus negócios em nossa nação. São eles: Joseph Safra (Banco Safra), Miguel Krigsner (O Boticário), Sassan Dayan (Banco Daycoval), Chaim Zaher (Grupo SEB), Patrick Iarragoiti (SulAmérica), Régis e Ghislaine Dubrule (Tok & Stok), Michael Klein (Casas Bahia), Elie Hom (Cyrela), Liu Ming Chung (Nine Dragons) e Mitsuo Matsunaga (Kitano).

Pessoas que construíram verdadeiros impérios e, ainda, alavancaram a econômia, geraram milhões de empregos e trouxeram inovação para o nosso País. Este é um verdadeiro ganho humanitário. Sendo assim, precisamos dar ainda mais espaço para este público. Carecemos que o Brasil deixe a crise de lado e atraia, cada vez mais, uma população qualificada.

O brasileiro é reconhecido por ser acolhedor. Então, precisamos lembrar de nossas raízes e pensar que o Brasil é um país de todos e para todos. Quantos brasileiros não foram tentar a vida no exterior no último ano? Foram muitos. Só em 2017, a Receita Federal computou mais de 21,2 mil saídas. Segundo o Datafolha, 62% dos jovens, com idade entre 16 e 24 anos, gostariam de ir embora do Brasil. Será que eles também merecem ser hostilizados em seus destinos? Certamente, não.

Dizer que eles são responsáveis pelo aumento da violência no Brasil, é um absurdo. Nós sofremos com a falta de segurança há muitos anos. Além disso, outra reclamação recorrente é a de que eles irão roubar as poucas oportunidades no mercado de trabalho que temos. Hoje, são mais de 13 milhões de brasileiros desempregados, mas a quantidade de imigrantes ou refugiados que temos em nosso País é insignificante perto deste índice. Não são eles que vão impedir as contratações dos nacionais.

Com a proximidade das festas de final de ano, onde todos buscam fazer votos de prosperidade, vamos tentar pensar no próximo e nas causas humanitárias com as quais podemos contribuir. Nós, brasileiros, somos um povo de coração aberto e com diversas virtudes. Se cada um fizer a sua parte, teremos o mundo que sempre sonhamos!

*João Marques da Fonseca é presidente da EMDOC, consultoria especializada em mobilidade global, bacharel em Administração de Empresas e Ciências Jurídicas. É idealizador do PARR (Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados)

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