O futuro já chegou

O futuro já chegou

Bruno Teixeira*

03 Junho 2018 | 04h00

Bruno Teixeira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Enquanto uns acreditam que carro que anda sozinho, impressora 3D e robôs na medicina e na construção civil são recursos e ferramentas do  futuro e de ficção, outros estão cientes de que tudo isso já é uma  realidade e estão buscando soluções para os problemas e empecilhos criados pelos grupos mais “conservadores” que tentam barrar as mudanças.

No entanto, é normal que, em um primeiro momento, toda invenção tenda a ser vista como um problema, uma vez que tudo aquilo que é desconhecido, e não dominamos, nos assusta e causa “estranheza”. Peter Diamandis, por meio dos 6 D’s Exponenciais, preconizou que as inovações digitais se desenvolvem em seis etapas principais: digitalização, decepção, disrupção, desmonetização, desmaterialização e democratização, evidenciando, assim, que toda inovação tem um caminho a percorrer. Dessa forma, a humanidade, atualmente, está experimentando essa jornada.

A evolução tecnológica está cada vez mais rápida. O carro autônomo foi projetado, algumas falhas foram identificadas, soluções já foram pensadas e estão sendo elaboradas tantas outras nesse momento no Vale  do Silício. Essa é uma das características mais marcantes da sociedade moderna: projetar, construir e errar com rapidez para superar tudo com soluções inovadoras buscando a evolução constante. Essa geração ainda vai ver grandes mudanças no mundo e vejo todo esse movimento com bons olhos. Acredito que o saldo vai ser positivo para a evolução da humanidade.

Não nos preparamos para todo o ferramental tecnológico que possuímos hoje, mas é incrível saber que a ferramenta “ser humano”, a principal delas, ainda é e sempre será soberana. Isso porque todo o comando que a máquina recebe, por mais inteligente que seja, parte de um indivíduo pensante, criador, com sinapses cerebrais e, sobretudo, com anseios, desejos e sonhos, que trazem a “humanidade desejável” a qualquer inteligência artificial.

Baseado na ideia de que a máquina homem e a sua inteligência são peças centrais da evolução, todo o meu otimismo parte de como essa revolução tecnológica irá transformar o ensino que temos como modelo atual. A educação, como conhecemos hoje, não vai mais existir.

Eduardo Glitz compartilhou com a plateia do EdTech 2018 que, em 2030, a maior empresa da internet será de educação e que nós nem ouvimos falar ainda. Com base nessa perspectiva, é importante entendermos como podemos desconstruir os projetos mentais dos caminhos para a aprendizagem e aumentar o interesse do professor e do aluno, pensando o ensino de forma diferente, “fora da caixa”.

O maior desafio dessa projeção para a educação é o ensino básico. No entanto, não está diretamente relacionado à infraestrutura e, sim, ao longo processo de mudança no mindset dos pais, dos diretores de escola e dos professores, que precisam entender que a forma como eles aprenderam não funciona mais. Esses atores devem permitir que a mudança aconteça e, principalmente, apoiá-la.

Conrado Schlochauer fala que o aprendizado é diferente de aquisição de conteúdo. Segundo o empresário, não existe milagre no processo de formação e ter feito um curso não garante a aprendizagem e a assimilação do conteúdo. A mudança está na transição do Homo Sapiens (O Homem Sábio) para o Homo Discens (O Homem que Aprende).

Contudo, a tecnologia sempre será um meio para permitir que o homem aprenda a aprender e esta afirmação se evidencia ao classificarmos as cinco grandes tendências de como aprenderemos em meio a esta revolução em relação às metodologias utilizadas no processo ensino-aprendizagem. São elas: sala de aula digital; realidade virtual e aumentada; trabalho colaborativo; força de trabalho do futuro e big data; e inteligência artificial.

Com base na afirmação de Gerhard Fisher, em seu artigo Lifelong Learning – More Than Training, o aprendizado não pode mais ser dividido apenas entre a fase em que se adquire o conhecimento (escola) e a fase na qual se aplica o conhecimento (ambiente de trabalho). Com isso, podemos aferir que o futuro da educação também já está no agora.

Thomas Frey, do DaVinci Institute, declarou, com base em estudos apresentados no último Fórum Econômico Mundial, na Suíça, que 65% das crianças que entram no primário hoje irão trabalhar em empregos que ainda não existem. Nesse sentido, esse novo olhar sobre o futuro das profissões traz perspectivas muito claras sobre a questão da adaptabilidade como soft skill primordial para se conquistar sucesso nessa transição da educação e das novas carreiras que irão “substituir” o que dominamos.

Diante disso, uma reflexão importante para avançarmos é em relação às adaptações e às implementações, que as empresas e universidades podem fazer para incorporarem essas inovações às suas realidades. Como exemplo, temos os laboratórios virtuais e as ferramentas que identificam e se propõem, de alguma forma, a personalizar o ensino com a utilização de big data e AI. Essas novas tecnologias auxiliarão no diagnóstico da melhor forma para o aluno aprender naquele momento. Maneira essa que pode e deve se alterar a partir do desenvolvimento do mesmo aluno, levando em conta todas as influências e experiências vividas por ele.

Nessa lógica, tendo em mente o conceito de “Lifelong Learning” (Aprender durante toda a vida), é muito importante incorporar aprendizados novos, todos os dias. Além disso, é essencial deixar para trás determinados paradigmas, principalmente quando nos impedem de fazer algo novo.

No EdTech 2018, tive a oportunidade de visitar a Startup Village, onde vi muitas soluções incríveis em realidade aumentada e virtual e agendas digitais para escolas. Conheci, inclusive, um novo modelo de ensino de robótica e coding, em que a lógica não é ensinar a criança a programar e, sim, mostrar a forma mais lógica de pensar a solução em um ambiente de causa e efeito.

Como se já não bastasse tudo o que vi e ouvi durante o EdTech, veio a palestra final do Emílio Murano, vice-presidente do Instituto Ayrton Senna, que finalizou o dia com maestria. Emílio demonstrou, de forma brilhante, que toda essa revolução tecnológica na educação e no mundo já é possível de ser realizada. O futuro já chegou, e não pelas tecnologias já existentes, mas pelo ponto mais importante: o fator GENTE, que se apresenta como o principal insumo dessa mudança. E nós já o temos: as crianças.

E se nós já possuímos a matéria-prima mais essencial, precisamos nos esforçar em atingir os outros “GENTES” dessa equação, que são os professores, pais, educadores e pensadores. “As crianças anseiam por essas mudanças e estão clamando por elas”, afirmou Emílio. Em suma, em um cenário no qual 88% das crianças no Ensino Básico e Médio estão estudando em escolas públicas, o 6º D da exponencial, que é a democratização, só vai realmente acontecer no Brasil, ou em qualquer outro ponto geográfico da Terra, quando as escolas públicas obtiverem essas tecnologias e metodologias. Para isso, como espaço público que é, só depende de nós mesmos.

*Vice-Reitor de TI da UNISUAM

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