O futuro é logo ali, onde nos levam os algoritmos

O futuro é logo ali, onde nos levam os algoritmos

Laércio Cosentino*

12 de novembro de 2021 | 10h30

A tecnologia está cada vez mais presente em nosso dia a dia. Se, por um lado, temos infinitos recursos ao nosso dispor, por outro, a inovação contínua desafia empresas de todos os segmentos a todo instante.

Eu, como um entusiasta e incentivador do mercado de tecnologia da informação em nosso país, fico feliz em ver a tecnologia permeando cada vez mais, não só as atividades de nossas vidas, como a nossa própria vida.

Nesse artigo, quero abordar como a agenda de Transformação Digital vai muito além da adoção pura de tecnologia. Como a inovação, de fato, pode impactar tanto a vida de uma sociedade – do indivíduo às grandes corporações? Sairei do discurso e darei exemplos práticos de como já estamos sendo guiados nessa evolução.

A tecnologia permite transformar um dado em informação, a informação em conhecimento e conhecimento em evolução. Por sua vez, os algoritmos transformam evolução em alternativa, previsibilidade, escolhas e tendência.

Para entender o caminho que estamos trilhando nessa revolução dos algoritmos, vou dividi-los em cindo grandes grupos: conhecimento do corpo humano, mapeamento de comportamentos, processos, monitoramento de movimentos e conexões entre coisas.

Corpo humano

A rapidez como a tecnologia está revolucionando a área médica é impressionante. Se nos anos 90, o sequenciamento genético de uma pessoa custava US$ 3 bilhões, hoje o custo é infinitamente mais acessível à população, com testes de DNA a partir de R$ 199, por exemplo. Inclusive já há iniciativas em que são ofertados testes gratuitos em parcerias de laboratórios com o Sistema Único de Saúde (SUS), em algumas regiões do Brasil.

Estamos vivenciando um movimento da democratização desse procedimento vital para todos. Afinal, o sequenciamento do genoma pela saliva, sangue ou fio de cabelo, desvenda a origem do ser humano, diagnostica algumas doenças e previne tantas outras.

A era da medicina personalizada já é uma realidade. Graças aos algoritmos de predição, baseados em inteligência artificial, é possível indicações de tratamentos personalizados. Cada ser humano, por meio do conhecimento da sua composição genética, poderá ser tratado de forma única, com medicamentos e posologia mais adequados a cada corpo. Tudo isso, gravado em seu prontuário digital para acompanhamento de toda sua trajetória de vida, compartilhando com as pessoas certas, na hora necessária.

Comportamentos

Vou fazer uma pergunta simples para explicar a influência dos algoritmos em nossos comportamentos. Dos últimos produtos ou conteúdo que você consumiu, seja um livro, uma série, uma música ou um vinho, quais foram 100% decididos de forma autônoma por você, sem nenhuma interferência ou influência digital?

Nesse desafio de conhecer o comportamento humano, as iniciativas vencedoras nascem nas discussões sobre as mudanças comportamentais do ser humano e nas novas bandeiras definidas por ele. Com inovação e tecnologias disponíveis, cada ser humano pode ter o seu próprio palco para se fazer presente, se expressar e reivindicar.

Em contrapartida, os dados captados nesse ciclo de inter-relacionamento digital entre pessoas, seja por meio de debates em redes sociais, na inserção de minorias (de ideias e/ou de raças), na geração de oportunidades inclusivas, na forma de pensar e agir, na formas de pagamentos ou na digitalização do consumo, tem importância significativa na construção do conhecimento e no rastreamento do perfil comportamental de cada um de nós. Será que de fato nós adquirimos o que realmente queremos?

Processos

Você que está há mais de 20 anos no mercado de trabalho, ainda existe algum processo que faça da mesma forma como no início da sua carreira? Acho difícil encontrar algum exemplo que se mantenha fiel, sem nenhum tipo de alteração causada por alguma tecnologia ou inovação.

Nos últimos dois anos, impactados pela pandemia, vimos os modelos tradicionais de trabalho se transformar completamente. Reuniões, contratações, entregas – tudo foi digitalizado. Fomos, de um dia para o outro, inseridos em um ambiente totalmente online. E se alguém me pergunta qual o grande legado desse período, costumo dizer que a maior lição foi a capacidade do ser humano em se adaptar à nova realidade. Muitas empresas seguiram seus processos, de forma remota, graças ao uso da tecnologia. Tendência que muitas manterão, mesmo depois da pandemia.

Monitoramento de movimentos

Nossos smartphones ou dispositivos moveis que vestimos sabem onde estamos, como chegamos, que velocidade nos deslocamos, o que conversamos, com quem conversamos, o que estamos consumindo, em qual horário, quando relaxamos, o que lemos, o que pesquisamos, o que precisamos, nosso saldo financeiro, nossos relacionamentos, nossos sinais vitais.

Imagine, agora, olharmos esses dados de forma consolidada sobre o ponto de vista do mapeamento de uma cidade. Já há tecnologia disponível para scanear cada metro quadrado, considerando cada edificação, recursos disponíveis, transportes, adensamento, número e perfis de pessoas, contratos, empresas localizadas, regras de zoneamento, entre outras camadas de informações.

Esses dados trabalhados de forma inteligente são capazes de gerar informações necessárias para planejamentos estratégicos ou auxiliares nas tomadas de decisões dos habitantes ou empresas, por toda a cidade.

Conexões entre coisas

Esse último grupo de algoritmos que trago, acredito que seja o que presenciaremos uma maior revolução nos próximos anos, sobretudo com a chegada do sistema 5G no país.

Com o tráfego de dados em alta velocidade, 100 vezes mais rápido do que temos atualmente, ganharemos novos formatos de interatividade e ampliaremos os que já existem em todos os setores do mercado.

Considerada a transmissão de dados mais avançada que existe, o 5G permitirá a conexão de até um milhão de dispositivos por quilometro quadrado, expandindo, de uma vez por toda, o conceito de internet das coisas (ou IoT, na sigla em inglês). Na prática, significa que teremos ambientes altamente interativos entre máquinas e pessoas, possibilitando novas experiências imersivas, realidades virtuais, entre outras inovações que ainda nem existem, a partir dessa facilidade de conexão.

As mudanças conquistadas nas últimas décadas são inquestionáveis. Mas será que de fato nós conquistamos mais liberdade? Um maior controle da nossa existência? Ou será que nos tornamos pouco a pouco controláveis e controlados, sem sequer percebemos este processo?

Se apostamos no sucesso da Transformação Digital em curso, um mundo gerido por algoritmos é algo possível, mas se levarmos em consideração que a sociedade, de tempos em tempos, aciona o freio de arrumação, se recompõe, muda e busca um novo ponto de equilíbrio, podemos acreditar que ainda existem muitos desafios para o sucesso do domínio dos algoritmos.

O que o futuro nos reserva? Para onde os algoritmos nos levarão?

*Laércio Cosentino é sócio-fundador do Grupo GHT4, The Family Company, empreendedor e investidor. Formado na Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com especialização em Engenharia Elétrica, criou, em 1983, a Microsiga, que se transformou na TOTVS, onde hoje é presidente do Conselho Administrativo. Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), presidente do Conselho da Mendelics e do Conselho da BR-ME e conselheiro nas empresas Cristália, Brain4care e Shipay

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