O futuro é do trabalho digital e do desemprego analógico

O futuro é do trabalho digital e do desemprego analógico

Fernando Taliberti*

07 de junho de 2020 | 11h00

Fernando Taliberti. FOTO: DIVULGAÇÃO

A economia vinha se digitalizando. Mas, de repente, tudo mudou rápido e radicalmente. O que chamo de Pandemia Digital alterou o futuro do trabalho, do emprego e do consumo, definitivamente. Segundo uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), 61% dos clientes que compraram online durante a quarentena aumentaram o volume de compras devido ao isolamento social, com destaque para compras de alimentos e bebidas de consumo imediato, que cresceram 79%.

Não dá para dizer que a transformação estava sendo lenta, mas tudo é relativo. Na minha percepção, de quem a vinha provocando no varejo, este era um processo empurrado pelos negócios digitais. Vendas bem-feitas, ganhos relevantes e a premissa de superar a resistência à mudança.

Mas a pandemia não está acelerando apenas a transformação digital. Ela tem efeitos econômicos imediatos e devastadores. Muitas empresas demitindo em massa para sobreviver ou preservando parte dos empregos que geram. Empresas que não oferecem um produto ou serviço essencial, neste momento, estão sofrendo. E se não o fazem digitalmente, estão sofrendo ainda mais. Não é mais uma questão de vender transformação digital, é hora de comprar.

Mas, e o emprego? E o trabalho?

Não é fácil para executivos e empresários demitirem em massa. Também não é fácil ser pego de surpresa por um evento raro como este (a que se refere como Cisne Negro) e perceber que custo fixo é um grande risco para a sobrevivência. Isso cria forças duradouras de transformação.

Digitalizar e automatizar para precisar de menos gente é uma tendência que vai se consolidar. Isso destrói empregos de um lado. Empregos analógicos. Trabalhos automatizáveis. Não é uma tendência nova, mas muda a voracidade e velocidade com que isso acontecerá (ou já aconteceu). Uma pesquisa da Navita, empresa de softwares corporativos, apontou que os downloads de aplicativos de produtividade aumentaram 189% neste ano, e de aplicativos de comunicação, 251%.

Uma vez feito um investimento em automação, dificilmente se voltará atrás. A mudança vem para ficar. Mas será que isso cria apenas desemprego?

O Ludismo era o movimento de revolta contra a tecnologia que destruía máquinas na revolução industrial, pois elas acabavam com os empregos. Hoje, sabemos que essa automação não foi uma vilã que gerou um desemprego definitivo e afundou a economia. O mesmo ocorrerá na Pandemia Digital.

Novos negócios serão criados e outros florescerão para permitir que empreendimentos se tornem mais digitais e automatizados. Será preciso produzir e entregar mais tecnologia. E isso vai criar empregos, mas de outro tipo. Empregos que exigem qualificação digital, esta que a maior parte da população ainda não tem.

Talvez tenhamos, sim, muito menos vagas de emprego. Mas negócios digitais criarão diversas novas categorias de trabalho e empreendedorismo que serão alternativas para uma massa de desempregados analógicos, que deverão estar capacitados minimamente no mundo digital. Entre estas categorias estão o motorista de aplicativo, o entregador, o comprador, o microempreendedor que vende seu artesanato no Elo7 ou seu serviço no GetNinjas.

A competição, no entanto, vai aumentar muito e não será fácil se manter.

Além disso, para a construção e operação dos novos negócios digitais, que serão as engrenagens de uma economia movida a menos trabalho humano e mais automação e digitalização, será necessário um profissional muito mais literado digitalmente. Será necessária uma massa deles. Como?

A resposta está na outra oportunidade que vejo na Pandemia Digital. Está no movimento da digitalização da educação. Escolas públicas e particulares, universidades e instituições de ensino precisarão se adaptar rapidamente para este momento. E negócios de educação que já eram digitais estão surfando uma grande onda por estarem preparados. Além disso, movidos pelo espírito solidário que o momento exige, surgiu uma grande oferta de educação digital gratuita de várias áreas e formatos.

O legado? Está claro para todos que a educação digital tem várias limitações, mas pode ser muito abrangente e democrática. Ela pode ser a oportunidade de educar milhões nas competências digitais que serão necessárias para evitar uma falta de trabalho (mais que uma falta de emprego). Precisamos oferecer educação de qualidade de forma acessível para milhões de pessoas que necessitarão para trabalhar em um novo normal.

E aí, entra mais uma oportunidade. A indústria de hardware vinha sofrendo com um overshooting. A tecnologia disponível para os celulares já era mais que suficiente para o consumidor médio. Vender novos dispositivos para educação com uma tecnologia amplamente disponível e um custo acessível pode ir de encontro a uma grande demanda.

O resultado final da Pandemia Digital será uma economia a base de trabalho e educação digitais. Não haverá espaço para quem desconhece ou ignora este universo. Para ilustrar o que digo, na China, mendigos recebem esmola através de pagamento por QR Code. Precisamos preparar a oferta de pessoal para uma nova realidade de trabalho. Não será uma transformação sem dor. Mas quanto antes a abraçarmos como pessoas, empresas e sociedade, mais rápido poderemos conduzir esta transição.

*Fernando Taliberti, fundador da Onyo, empresa de operações digitais de food service, e mestre em negócios online e tecnologias de informação e comunicação pela Politecnico di Torino, Itália

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: