O futuro dos imóveis e os imóveis do futuro

O futuro dos imóveis e os imóveis do futuro

Fábio Tadeu Araújo e Marcos Kahtalian*

21 de junho de 2020 | 02h00

Fábio Tadeu Araújo e Marcos Kahtalian. FOTOS: DIVULGAÇÃO

Nunca a convivência dentro da própria casa foi tão intensa para as famílias como vem sendo agora, pelo menos desde a gripe espanhola. A duração desta paralisação ainda é incerta, mas já é possível dizer que a convivência expandida em casa, com as exigências e limites que impõe, vem obrigando todas as pessoas a refletirem sobre o local em que vivem. Isso suscita um intenso debate sobre o que deve ou não mudar nos imóveis do futuro.

Fazer previsões no alvo é mais difícil com a mudança rápida e drástica de cenário. Assim, temos visto muitas opiniões, das mais radicais às mais conservadoras, cada qual defendendo sua ideia do que o consumidor irá querer e desejar como moradia no futuro. O impacto da pandemia é grave e possivelmente duradouro, senão em seus efeitos
sanitários, possivelmente em seus efeitos econômicos. É tentador apontar como será o mercado imobiliário do futuro, mas a pressa na análise pode levar a equívocos.

Entretanto, para muitos especialistas, como indicou um recente estudo da revista britânica The Economist, o coronavírus não irá alterar fundamentalmente a vida urbana, pelo menos no que se refere à densidade. Outras epidemias, tão ou mais graves, não tiveram este poder.

No passado, as cidades continuaram a ser maravilhosas invenções da sociabilidade, com todos os seus problemas. Afirmar que as condições de saneamento e qualidade geral do ambiente vão melhorar como consequência indireta do isolamento social provocado pela chegada da covid-19 em nossas vidas é dizer apenas o que já deveria ter sido feito, isto é, o que já se sabia ou se intuía como necessário.

Neste sentido, entendemos que o mais provável é que a atual pandemia catalise tendências, apressando e dinamizando o que já vinha ocorrendo — ainda que, no curtíssimo prazo, mudanças mais radicais possam acontecer.

Um bom exemplo é a questão do home office. Ele já era uma realidade, mas agora que muitas corporações divulgaram que não retornarão aos níveis anteriores de ocupação de escritórios, ele se torna imperativo. Mas como fazer o home office na própria residência? É possível ter um espaço só para ele? E como fazer nos apartamentos
menores?

Como já vinha ocorrendo, veremos o crescimento do coworking, ainda que com as medidas de segurança necessárias. Do mesmo modo, a casa já vinha sendo um local múltiplo, com espaços para lazer, entretenimento, convívio, estudo, trabalho. Mas agora, por conta da conjugação de fatores e com o uso misto e mais intenso do espaço, o uso do ambiente doméstico se tornará ainda mais especializado e sofrerá impacto de
reflexões cada vez mais profundas.

No curto prazo, a cultura do compartilhamento deverá sofrer reveses. Possivelmente o conforto e a privacidade serão mais valorizados, mas renda, drasticamente afetada por um bom tempo, pode afetar iniciativas que operem com este conceito.

Esse será o desafio para incorporadores e planejadores urbanos: conseguir entregar o que as pessoas precisam, desejam e podem conquistar. Nada traz mais qualidade de vida que o próprio lar em condições dignas. Não se inventou ainda uma tecnologia melhor para o bem estar familiar do que a casa. Nunca tivemos tanta consciência disso, e essa consciência fará com que os imóveis do futuro incorporem essas demandas de hoje.

*Fábio Tadeu Araújo e Marcos Kahtalian, professores universitários e consultores e sócios da Brain Inteligência Estratégica

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