O futuro da governança corporativa

O futuro da governança corporativa

Henrique Castro Martins*

10 de março de 2020 | 05h00

Henrique Castro Martins. FOTO: DIVULGAÇÃO

Tradicionalmente, Governança Corporativa coloca os interesses dos acionistas de uma empresa no centro dos seus objetivos e sempre que pensamos no tema, pensamos que o objetivo da empresa é maximizar a riqueza dos acionistas.

Em um passado recente, no entanto, iniciou-se um forte movimento que tem alterado significativamente esse entendimento acerca de Governança Corporativa e levantando questões relevantes acerca dos objetivos de uma empresa.

Esse movimento tem sido chamado de ESG (Environmental, Social and Governance) e tem adesão de diversos participantes importantes de mercado. Basicamente, clama-se pela inclusão de fatores associados à preservação ambiental (como, por exemplo, a utilização de água potável, nível de poluição gerada e geração de resíduos, etc.) e a práticas sociais (como a empresa trata seus funcionários e seus clientes, promove igualdade e diversidade, etc.) como parte dos objetivos de uma empresa.

Pode-se citar aqui a carta recente de Larry Fink, CEO da gestora BlackRock, o novo código de Governança proposto no U.K., e o comprometimento recente de 181 CEOs de grandes empresas norte-americanas com essas práticas. Do lado dos investidores, talvez a iniciativa Princípios para o Investimento Responsável (PRI) seja a de maior relevância e, basicamente, defende a incorporação de temas ambientais e sociais nas análises de investimento, processos de decisão de investimento e nas políticas de propriedades de ativos. Além disso, um estudo recente publicado no prestigiado The Review of Financial Studies sugere que os investidores institucionais estão, cada vez mais, cientes da importância desses fatores e pressionando as empresas a alterarem suas políticas sociais e ambientais.

Ao analisar essas iniciativas espontâneas de atores tão variados é difícil imaginar que o movimento não continuará ganhando força. Os fatores ESG, mais cedo ou mais tarde, deverão estar entre os objetivos perseguidos pelas empresas e, muito provavelmente, estaremos discutindo amplamente quais são suas melhores métricas de avaliação.

Essas métricas de avaliação, no entanto, ainda não existem ou são ambíguas. Enquanto somos capazes de avaliar objetivamente a capacidade de a empresa gerar retorno aos seus acionistas (e, portanto, avaliar se ela está alcançando seu objetivo mais tradicional de criar valor ao acionista), ainda não temos como avaliar se a empresa está em conformidade com o que se espera de sua atuação ambiental e social. Talvez o mais preocupante seja o fato de que as métricas existentes de ESG parecem ter pouca similaridade entre si, o que indica a falta de consenso sobre quais aspectos devem ser avaliados.

Intuitivamente, conseguimos avaliar se uma empresa A se sai melhor ou pior em questões ambientais e/ou sociais que uma empresa B, contudo ainda não temos um arcabouço único e um conjunto de métricas que eficazmente avaliam se as duas empresas estão próximas do seu objetivo final nesses quesitos. Aliás, nem mesmo sabemos qual é o objetivo final de uma empresa nos quesitos ESG.

Enquanto não criarmos um arcabouço que incorpore aspectos ESG aos objetivos da empresa (arcabouço que talvez nem seja possível de ser criado), uma das alternativas de curto prazo para incluir tais aspectos no processo de decisão de um investimento, na minha opinião, é considerá-los como fatores de risco. Por exemplo, é intuitivo imaginar que aquelas empresas com piores práticas ESG deverão ser aquelas que mais provavelmente se envolverão em escândalos, crises, processos, litígios futuros, etc. Assim, evitar o investimento em tais empresas deve proteger o investidor desses riscos.

Aparentemente, esse é o caminho que os atores envolvidos na avaliação de empresas e na gestão de portfólios estão tomando. Porém, a própria mensuração desse risco continua ambígua. Como precificar os riscos de perdas associados a eventos naturais drásticos? Quais riscos precisam ser de fato precificados para uma determinada empresa?

De todo modo, o mercado parece estar convergindo para um status em que empresas que não tenham boas práticas ESG talvez não consigam financiamento externo suficiente a tal ponto que talvez se tornem inviáveis economicamente. Ao menos, temos visto investidores institucionais bastante ativos na perseguição de fatores ESG.

Esse contexto todo só aumenta a necessidade de uma empresa pensar bem a sua estrutura de Governança da próxima década e apontar gestores e membros de conselho que entendam essa dinâmica recente, entendam os potenciais efeitos de não se aderir a práticas ESG e objetivamente tomem decisões levando tais dinâmicas em consideração.

*Henrique Castro Martins é professor de finanças do IAG – Escola de Negócios da PUC-Rio

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