O furo da pasta de dente

O furo da pasta de dente

Cassio Grinberg*

19 de fevereiro de 2020 | 06h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Durante os anos 1990, ficou conhecida a história do “furo da pasta de dente”. Segundo ela, com algumas variantes, uma conhecida marca de creme dental promoveu um concurso interno reunindo ideias de como aumentar as vendas.

A ideia vencedora — já li versões onde teria sido dada pela moça do cafezinho, intrometendo-se numa reunião de executivos — sugeria que simplesmente se aumentasse o raio do furo da pasta de dente: o consumidor usaria mais pasta e a compra seria repetida com frequência maior.

Transmitida como uma grande ideia, algumas décadas após fica claro que se trata de um grande erro. Uma espécie de erro também cometido historicamente pelas academias de ginástica, que ganhavam dinheiro vendendo assinaturas de longo prazo para ‘entusiastas de arrancada’ — que raramente continuavam a frequentar as aulas.

Onde está o erro? Óbvio, ganhar dinheiro enganando o consumidor, que certamente não se beneficiaria mais de quantidade extra de pasta de dente na escova — poderia inclusive se prejudicar. Recentemente, devolvi um carro alugado no exterior com o tanque reabastecido, sem me dar conta de que o havia alugado sem a necessidade de fazer isto. Imediatamente, o atendente me entregou um comprovante de devolução do valor pago a mais e me perguntou: como foi nosso serviço?, por favor me diga como podemos melhorar.

Precisamos entender que vivemos um novo capitalismo, onde não haverá mais lugar para empresas que passam o consumidor para trás. No Valentine’s, na semana passada, a Soul Cycle publicou um anúncio que dizia: “se o seu namorado… é o ponto alto de seu dia… memorizou a data de seu aniversário… guarda seu assento favorito… lhe dará um abraço suado… tem seus tênis e sua água… ele não é seu namorado. É sua equipe da Soul Cycle”. Com um nível de serviço fora da curva, ambiente com vibe incrível e modelo de pay per use, trata-se de uma empresa que reinventou o segmento de academias de ginástica nos Estados Unidos justamente por perceber que o consumidor tem que frequentar uma academia não porque é obrigado, e sim porque está a fim.

Está chegando a hora em que os bancos que pagam bônus com fraude, as mineradoras que estouram barragens, as montadoras que manipulam emissões de poluentes, os frigoríficos que misturam papelão com carne ou as operadoras nas quais você paga para entrar e reza para sair terão que rever com velocidade o modelo de relação com o mundo.

Do contrário, logo sairão dele.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda – como se abrir para o novo pode nos levar mais longe

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