O ‘flanelão’ verde

O ‘flanelão’ verde

Ricardo Viveiros*

24 de abril de 2021 | 16h30

Ricardo Viveiros. FOTO: DIVULGAÇÃO

Com atitudes no mínimo inadequadas do Governo Brasileiro na “Cúpula do Clima”, aconteceu o importante evento organizado pelos EUA. Estiveram reunidos 40 países com o objetivo de preparar a pauta da 26ª Conferência Sobre o Clima, a COP-26, que acontecerá em novembro deste ano em Glasgow, na Escócia. O principal foco está na redução da temperatura média do Planeta, de 1,5 grau neste século.

Entre muitos erros e poucos acertos, para “pesar” menos – como dizem os jovens –, vou relembrar um fato bem humorado ligado ao tema. Aconteceu durante a Eco-92, no Rio de Janeiro. O encontro, também denominado Rio-92, foi a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro há 29 anos. O acontecimento teve desdobramentos importantes dos pontos de vista científico, diplomático e político, além de ceder espaço a debates e contribuições para definir o modelo de desenvolvimento ambientalmente sustentável.

Presidentes e chefes de Estado de vários países de todos os continentes marcaram suas presenças, como também personalidades internacionais: Dalai Lama, Jane Fonda, Shirley MacLaine e Severn Suzuki – uma garota canadense que foi a Greta Thunberg da época. E, claro, políticos oportunistas de todos os partidos, defensores da ecologia da noite para o dia, se misturavam aos legítimos militantes.

O Rio de Janeiro, como qualquer outra cidade do Mundo, tem seus tipos populares, suas figuras típicas. Salvador (BA) tem a baiana do acarajé, Olinda (PE) tem os meninos contadores de história e por aí vão esses personagens tão conhecidos. O Rio de Janeiro tem o guardador de carros. Tipo simpático, envolvente e cheio de ginga carioca.

Fui à Conferência cobrir para uma emissora de TV. O Parque do Flamengo tinha boa extensão ocupada por grandes pavilhões montados para o evento. Tudo muito bonito, bem organizado, de “primeiro mundo” – para empregar expressão daquela época. Mas, como acontece na grande maioria das metrópoles, estacionamento que é bom… Nada.

No primeiro dia cheguei meio em cima da hora, e fiquei circulando aflito em busca de um lugar para deixar o carro. Sombra nem pensar. E, de repente, surge um “flanelinha”. Era um sujeito alto, forte e com um sorriso iluminado. Pediu para eu abaixar o vidro e mandou: “Dotôzinho, tá russo. Joga a máquina na mão do crioulo e vai na boa. Na volta acerta a conta.”

Era confiar, ou confiar. Não havia saída. Resolvi arriscar, o carro da locadora tinha seguro. Desci e quando ele me olhou, tomou um susto. “O dotôzinho é aquele da TV, não é?” No que confirmei, ele passou a mão no meu ombro e determinou: “Tá mais limpo ainda, com o crioulo aqui não tem talvez. Fique frio!”. E fui gelado cobrir o encontro histórico.

Na volta, apostando comigo mesmo, não é que encontrei o carro, o guardador e – para total surpresa – ele havia colocado um papelão para o sol não torrar o volante, lavado o carro e estava, nada mais nada menos, que literalmente sentado no capô. Com aquele tamanho todo gritando em silêncio: “Aqui ninguém mexe!”.

Fiquei tão contente com o quadro geral que meti a mão no bolso e puxei algo equivalente a uns trinta reais, naquele tempo a moeda era o cruzeiro. O “flanelão” não disse nada, apenas balançou a cabeça recusando e disse: “Negativo, dotôzinho. Sei que vai voltar, paga tudo só no final. Tá com crédito aqui com o crioulo.” Pois é… Eu sei que você está pensando o mesmo que eu pensei: “Isso vai sair bem caro…”. Como eu iria voltar e o problema seria o mesmo, melhor garantir o futuro. Topei.

E foram todos os dias iguais. Eu jogava o carro nas mãos do “flanelão” e, na volta, carro frio e limpo. Maravilha. No último dia, já preparado para morrer numa grana preta – sem qualquer conotação preconceituosa – com sincera gratidão, além de perguntar quanto era minha conta, convidei o já “velho” amigo para tomar uma cerveja. Ele ficou emocionado, mas impôs uma condição. Teria que ser no bar, ali perto, que ele frequentava. E não disse o preço do serviço. Aceitei.

Era um local bem arrumado. Na chegada, já entendi tudo. Ele entrou abraçado comigo e já botando banca com o rapaz que atendia: “Ô, gente fina, destaca a cerva mais tinindo que tem na geladeira aqui para o meu amigo da TV.” Tudo bem, ele havia sido muito legal comigo e tinha o direito de tirar uma onda com os conhecidos. Não só compareceu ao balcão a “cerva” bem gelada, como também um torresminho feito na hora, desprezando o frio e gorduroso da vitrina posando ao lado de uns ovos cozidos coloridos (nunca descobri como fazem isso).

E aí, descontraídos, bebendo e nos despedindo – talvez para sempre – aconteceu o momento mais especial. O “flanelão”, cujo nome era apenas “Tião”, já com uma garrafa de cerveja terminada, mirou firme nos meus olhos e mandou: “Dotôzinho, agora que o senhor é meu considerado, posso tomar uma liberdade?”. Pensei rápido antes de responder. Como estávamos em um local público, aberto, senti segurança diante daquele “armário” humano e disse disfarçando o temor: “Claro”.

Ele colocou o braço direito no meu ombro – sobrou braço para pouco ombro –, e me conduziu até a porta do bar. Apontou da esquerda para a direita todos os pavilhões da Eco-92, e disse no meu ouvido: “Tem nêgo levando 50% nisso tudo…”. Tremi na base. Ele manobrando os carros, teria ouvido ou descoberto alguma coisa? Vou ter um furo, fazer uma reportagem bombástica!

Sem conseguir disfarçar a justificada ansiedade, perguntei: “Por que?” E ele, seguro de si, do alto da mais pura lógica e já desconfiando da minha competência diante da ingenuidade, revelou: “Com nêgo morrendo de fome, toda essa dinheirama jogada nesse montão de coisas que armaram e já vão desmontar, para falar só de ‘meio’ ambiente… Dotôzinho, acorda! Tem corrupto levando 50%. Por que não falam do ambiente inteiro?!”

Nunca esqueci o “flanelão” verde.

*Ricardo Viveiros é jornalista, professor e escritor. Autor, entre outros, dos livros Todo mundo disse que não ia dar certo, A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita e O poeta e o passarinho

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