O fim da picada!

O fim da picada!

José Renato Nalini*

20 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Não bastasse o luto pelas quase 550 mil mortes de brasileiros lançados à própria sorte durante a pandemia da Covid19, o escancaramento da miséria atroz, a falta de perspectivas diante da generalizada insensatez, e o Parlamento nos oferece mais uma razão para lastimar. É um verdadeiro “Paralamento” o que ele fez, aprovando R$ 5,7 bilhões para as eleições de 2022!

Quase três vezes o que se gastou em 2020, para as eleições municipais. É uma vergonha que o Brasil ainda mantenha um sistema de financiamento público de eleições, quando 2018 já mostrou que os tempos são outros e que campanha se faz pelas redes sociais. Quase seis bilhões de reais desperdiçados, para financiar áulicos, é um absurdo.

Enquanto isso, não se sabe como sustentar os milhões de invisíveis, os milhões de informais, os milhões de desempregado, os milhões de sem teto, sem saneamento básico, sem educação, sem saúde e sem perspectiva.

Por isso é que existem quase quarenta partidos políticos e a intenção de criar tantos outros. Quem nunca produziu algo de útil para o Brasil, nunca empreendeu, nunca enfrentou a burocracia e a hostilidade do governo em relação à iniciativa privada, prefere criar um partido político. Ou uma agremiação religiosa. É o que garante sustento a partir do discurso. Da retórica, das promessas que serão descumpridas, na certeza de que o povo esquece, durante os quatro anos do mandato, aquilo que se afirmou durante a campanha.

Um país que patina e que procrastina a implementação do 5G, envolvendo-o em teorias conspiratórias xenófobas, um país que não garante conectividade para as escolas e para as comunidades, pese embora o compromisso assumido pelas concessionárias, um país que não faz reforma administrativa para enxugar a monstruosidade de um Estado que só cresce, gasta e perpetra malefícios para a população, dá-se ao desplante de reservar quase seis bilhões para eleições.

Estas, de há muito, já deveriam ser realizadas mediante utilização dos mobiles. Temos mais de trezentos milhões em uso, o que é muito mais do que o total da população. Ou seja: vários brasileiros têm vários desses aparelhos eletrônicos que permitem fazer transferência de dinheiro, efetuar operações comerciais, pagar, comprar, além de propiciar toda espécie de comunicação. Serve para que o Judiciário continue a funcionar – e com produtividade e eficiência redobradas – durante a pandemia. Mas não serve para aferir a vontade do eleitor.

É infame o sistema que impede um cidadão de exercer sua cidadania ativa, escolher aqueles que, em seu nome, devem gerir a coisa pública, só porque no dia escolhido para essa manifestação de vontade, ele não está no domicílio em que seu título de eleitor se encontra.

Tudo ao contrário daquilo que caracteriza a sociedade contemporânea. As pessoas são hoje cidadãs do mundo. Podem estar em qualquer quadrante do planeta – que não é plano, advirta-se aos resistentes – e, mesmo assim, exteriorizar a sua vontade.

As eleições retrógradas, anacrônicas, exasperantes para quem tem de trabalhar gratuitamente nelas, ainda se realizam nos moldes medievais. Requisição de prédios escolares, grande movimentação do mobiliário e equipamentos, para abrir espaço destinado à colocação das urnas, comparecimento físico de cada cidadão a permanecer em fila, deslocando-se de sua casa até o local reservado para se desincumbir do seu direito-dever de votar.

Milhões de brasileiros convocados a trabalhar gratuitamente. Gastos com lanches, cidades inteiras inundadas de papel inútil, que vai entupir bocas de lobo. Irritação geral. Quando a intenção do eleitor poderia ser colhida com um clique. O dinheiro destinado aos famigerados “Fundos” Partidário e Eleitoral seriam bem aproveitados garantindo-se conectividade e segurança cibernética para o uso das tecnologias que funcionam a contento no mundo civilizado.

Pior do que a destinação de quase seis bilhões para as eleições do ano que vem, seria a aprovação do inacreditável retorno ao voto escrito. Aquele que garante ao analfabeto funcional ser teleguiado pelos coronéis de sempre.

É; o Brasil não tem vocação para ser pioneiro. Mesmo depois de experimentar com reconhecido êxito o uso da urna eletrônica, ele quer voltar ao sistema antigo. Interesse de quem? Dá para acreditar que haja boa-fé em quem deslegitima um processo comprovadamente eficaz, para o retorno ao passado de fraudes que esteve presente em várias etapas desta claudicante República?

Está na hora de exorcizar esta República. A maior façanha do príncipe das trevas é fazer o povo acreditar que ele não existe. Mas ele está ativo e operoso em busca da consecução de seus nefastos propósitos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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