O fim da barreira entre ensino presencial e a distância

O fim da barreira entre ensino presencial e a distância

Rodrigo Neiva*

07 de maio de 2021 | 03h30

Rodrigo Neiva. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em pouco mais de um ano da adoção de medidas de isolamento social para a contenção da taxa de transmissão do Covid-19, é possível perceber muitas mudanças nos mais diversos setores. Entretanto, há quase um consenso de que a escola tal qual a conhecíamos não mais existirá. Os mitos da educação à distância caíram por terra a partir do momento em que a interação professor-aluno só foi possível com a mediação da tecnologia. Professores que, até então, não haviam considerado lecionar à distância, tiveram que, de repente, planejar suas aulas em formato digital, incluindo todas as possibilidades que esta modalidade oferece.

Há um maior reconhecimento do papel do professor pela sociedade que observa o esforço empreendido na adaptação e o investimento de cada um destes profissionais no planejamento de aulas. É preciso manter a atenção dos estudantes para a tela e, além dela, para os problemas, conteúdos e atividades propostos. Ao mesmo tempo, do outro lado do computador ou do smartphone, o estudante de um curso presencial começa a perceber que muitas atividades funcionam da mesma forma, ou até melhor, quando realizadas em ambiente digital.

Até então, no Brasil, conhecíamos um ensino a distância que eu chamaria de programado, usando um termo da semiótica discursiva. Nesta modalidade a interação professor-aluno segue uma espécie de programa. Os conteúdos são organizados em disciplinas e unidades, apresentados aos alunos por meio de textos, vídeos e objetos de aprendizagem interativos. Os estudantes acessam os conteúdos e interagem de maneira prioritariamente assíncrona, em leituras, fóruns de discussão e exercícios.

Professores e tutores desempenham, a depender do modelo, o papel de responder dúvidas, de motivar os alunos a estudarem os conteúdos e realizarem as atividades e de organizar os encontros síncronos. É claro que, em se tratando de ensino à distância, não cabem generalizações como a que acabo de fazer. Mesmo antes da pandemia inúmeros modelos coexistiam, com diferenças de concepção e execução significativas. No entanto, este modelo programado, com atividades em sua maioria assíncronas, possui limitações e normalmente exige um aluno mais autônomo, automotivado e disciplinado.

O que pudemos verificar nestes últimos meses foi bem diferente. De uma hora para outra alunos e professores passaram a interagir diariamente em uma sala de aula digital. Com o tempo, foram descobrindo recursos para atividades colaborativas, grupos passaram a se reunir em plataformas de videoconferência, novos aplicativos foram introduzidos e tantos outros foram criados ou aperfeiçoados por grandes empresas ou startups. As tecnologias educacionais têm se desenvolvido de forma acelerada.

Se antes havia a crença de que práticas só poderiam ser presenciais e a teoria era mais adaptável ao modelo online, as fases mais críticas do isolamento social acabaram por trazer os laboratórios digitais de vez para as salas de aulas. Os simuladores não são capazes de substituir todas as práticas presenciais, obviamente, como a criação e degustação de produções na gastronomia e ou as intervenções na área de saúde. Por outro lado, o uso de simuladores de realidade virtual nesta área pode tornar os estudos do corpo muito mais efetivos. Alunos da área de gestão, por exemplo, podem ter seus negócios submetidos a inúmeras variáveis socioeconômicas, introduzidas pelo professor que desafia a capacidade de tomada de decisão dos estudantes ao mesmo tempo em que explica os conceitos e as teorias relacionadas. Se bem planejada, este tipo de aula acaba por quebrar mais uma barreira, a que separa teoria e prática.

O avanço das tecnologias educacionais e o aprendizado acumulado neste período, aliados à quebra da barreira entre o presencial e o digital configuram-se no pano de fundo para uma mudança disruptiva na educação. Como em todo processo de inovação não há fórmula única, nem mesmo respostas prontas. A sociedade tem o grande desafio de garantir a infraestrutura e o acesso às tecnologias a todos os estudantes e professores, nos mais diversos níveis de ensino, público ou privado.

Superando esta barreira, sairá na frente a escola que investir em tecnologia, valorizar a capacitação de educadores e criar um ambiente favorável à criatividade e ao compartilhamento de ideias. Esse é o cenário mais fértil para a construção de uma nova sala de aula, híbrida, que contribua para a formação de estudantes preparados para enfrentarem os desafios cada vez mais complexos da sociedade contemporânea.

*Rodrigo Neiva, diretor de Personalização na Ânima Educação

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