O feminismo que vem de berço

O feminismo que vem de berço

Cândida Cristina Coelho Ferreira Magalhães*

02 Dezembro 2018 | 05h00

Cândida Cristina Coelho F. Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

Fazer ninar uma filha é exterminar o vespeiro do machismo enquanto ela dorme, porque ao acordar sentirá a essência de ser menina mulher no mundo de igualdade, segurança e liberdade. Seria isso uma utopia materna feminista?

Indubitavelmente, os fatos e estatísticas demonstram que ser mulher é viver em riscos constantes, um estado de guerra ao qual nos sentimos ameaçadas a todo tempo, somos consideradas objetos e assediadas, violentadas e violadas até nas garantias mínimas e, inclusive, mortas pela condição do nosso gênero. Definitivamente, ser mulher dá um frio na alma e um medo valente de transpor tudo que nos aprisiona.

No cenário brasileiro de violência contra as mulheres, os números denunciam um país que negligência o elementar, pois somos o 5.º em mortes de mulheres em todo mundo. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada, e 3 em cada 5 mulheres jovens já sofreram violência no Brasil. Diante dos números postos, restam as escolhas: omissão ou resistência. Entretanto, resistir é a única opção que nos manterá vivas.

A realidade das mulheres não é canção com refrão de “mimimi”, nossa independência ainda é carregada de intimidações, andar sozinha em uma rua escura ainda acelera o coração, competência tem requisitos de aparência física, um manual social nasce conosco e determina como nos vestir, portar e agir, o psiu é um “elogio”, culpa e posse são marcas carimbadas nos papéis femininos.

Na colcha de retalhos, no álbum de fotografias e na visita ao passado identificamos que a discriminação contra as mulheres é uma das mais antigas estabelecidas na humanidade, o sistema patriarcal consolidou-se sob a égide da ideologia de subordinação da mulher em relação aos homens e à própria vida. Nascer mulher já foi um sinal de fraqueza em muitas famílias, assim como moeda de troca e servidão.

Ao longo da história, valentes mulheres lutaram como mulheres e romperam com limites impostos, escreveram suas histórias com o protagonismo que nos é peculiar. Deixar de celebrar os feitos e as lutas das mulheres é enfraquecer o empoderamento de todo dia, pois as inspirações têm nome, perfume e vozes.

Para além do cordão umbilical, do amor incondicional, das cumplicidades que entrelaçam as almas, o feminismo que vem de mãe para filha ou da filha para a mãe diz muito dos nossos processos de transformação. No baú das heranças entre linhas e lãs, joias e colares, costuras e costumes ouço-lhe deixar o maior dos tesouros: o feminismo.

Aquele que dá asas, que nivela e revela que somos todos iguais. Essa será sua principal arma para defender-se dos horrores do machismo, para romper os ensinamentos do patriarcado, alcançar e permanecer no lugar que escolher ficar. A melhor forma de ser mulher é ensinar outra mulher a voar sem limites e receios, e pousar onde e quando ela quiser, porque liberdade é escolha intransferível, pessoal e inviolável de ser feliz.

O feminismo que vem do berço desnuda a cultura do patriarcado e enfraquece suas raízes, transforma realidades de submissão e desigualdade, já que é irresistível a força de sermos essencialmente humanos, homens e mulheres. Simone de Beauvoir disse: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.”. Portanto, que nada nos limite ou determine nosso destino.

*Cândida Cristina Coelho Ferreira Magalhães, advogada

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