O feminismo que eu quero

Yedda Ching-San Filizzola*

17 Agosto 2018 | 10h00

“Agora, quando formos convidadas para um cargo na administração, não saberemos se é por nossa competência ou simplesmente para preencher o número de cotas dos politicamente corretos.”

A frase em epígrafe é parte de um belo e corajoso artigo publicado pela extraordinária promotora Marya Olímpia.

Vários fatos e ações recentes exigem de cada mulher uma reflexão sobre sua realidade e suas aspirações.

Mulheres mortas em feminicídios, mulheres agredidas e, por outro lado, iniciativas como a pretensão de exigência de paridade entre homens e mulheres como palestrantes em eventos do Ministério Público evidenciam, ao menos para mim, que existe um problema real e existem soluções ilusórias. Bem ilusórias…

Existe uma violência contra a mulher, existe ainda em muitos homens um sentimento de que a traição da sua companheira é algo inaceitável, capaz de desencadear a pior faceta da sua personalidade; existem homens intolerantes, incapazes de aceitar a independência, emocional ou financeira de uma mulher. Sim: existem. Quem está negando?

Contudo, a percepção é que estes homens não são a maioria, e mais, que essa violência não será combatida com ações como desfiles, protestos ou exigência de presença de mulheres em qualquer tipo de evento. Isso não resolve nada…

Recentemente passei a participar de grupos que organizam e realizam eventos na área do direito. Nunca percebi qualquer tipo de resistência a nomes de mulheres para palestrar, debater ou presidir mesas. Sempre prestigiamos ideias ou estudos.

Contudo, há convidados que recusam a participação, por diversas razões, inclusive incompatibilidade de agendas. E muitas vezes de agendas pessoais e profissionais. E aqui… vemos recusas mais frequentes de mulheres.

Eu, inclusive, deixei de ir a um congresso em razão de problemas de saúde menores das crianças. Meu marido insistiu que eu fosse, e faria o mesmo na situação inversa, mas eu, por minha vontade fiquei em casa.

Se a minha opção de alguma forma me prejudicou ou se deixou de me beneficiar profissionalmente, agora não interessa: eu fiz a minha opção!

Ela é minha. E eu lutei e luto pelo meu direito de decidir livremente.

E aqui reside a minha observação sobre o tema. Quero confiar que todos os convites de palestras e eventos que fiz e recebi, e todos os que farei e receberei, se fundamentam na capacidade intelectual, argumentativa.

E não na figura, no externo de cada um. Não por quererem que eu melhore a estatística: objetificada como um reles número, uma meta a cumprir.

Quero confiar que cada mulher e cada homem tem espaço para falar e ser ouvido por tudo o que tem a dizer.

Quero acreditar que todos serão livres para decidir os rumos das suas vidas profissionais, bem como das suas vidas pessoais.

Enquanto discutimos o menos, o muito menos, homens e mulheres continuam a ser mortos, na proporção de 96% de homicídios com vítimas homens para 4% com vítimas mulheres.

Somos uma sociedade violenta.

Se for um homem falando sobre isso, ótimo, se for uma mulher, ótimo também, mas a minha pergunta é: quando vamos falar sobre a necessidade de combater a violência e a impunidade?

*Yedda Ching-San Filizzola é Juíza de Direito no Rio de Janeiro

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