O feminicídio e a pequenez da masculinidade

O feminicídio e a pequenez da masculinidade

Bianca Stella Azevedo Barroso*

28 de dezembro de 2020 | 11h05

Bianca Stella Azevedo Barroso. FOTO: DIVULGAÇÃO

Horrorizadas enfrentamos novos casos de feminicídios no Brasil.

Uma parte de nós também morre com Viviane Vieira, no Rio de Janeiro, com Anna Paula Porfírio, em Recife, ou quando a barbaridade vitimiza qualquer mulher, em qualquer lugar deste mundo.

Nada justifica o crime abjeto cometido por esses homens.

Nada do que for dito, feito, pensado, pesquisado, analisado ou reprovado será reparo a essas vidas, e o que elas representam para suas famílias e para nós mesmas – congêneres.

No entanto, em prol de novos destinos, precisamos estar atentas para um fato: O machismo estrutural é responsável por estimular – incentivar – os homens criminosos.

Os homens precisam integrar ativamente o movimento de consciência coletiva masculina contra o machismo.

Acontece que, se ELE não foi o assassino ou o agressor, ELE acha que não faz parte do contexto. E faz sim.

Os homens precisam ser ativos na causa feminina, não apenas de maneira omissiva – “deixando de fazer o mal” -, mas de maneira ativa, agindo para produzir o bem e prevenir violência. Ouvimos de um colega de trabalho outro dia, sobre a necessidade desse lugar de fala masculino no combate à violência doméstica, que: “ – É muito difícil dialogar com outro homem sem o palavreado machista.” Como assim? São incapazes de evoluir? Estão aprisionados na “estrutura machista”?

O fato é que: o homem precisa ser inserido efetivamente neste debate, nesta luta. Precisa saber respeitar, curar e suportar suas dores que eventualmente tenham com o universo feminino. Quantas vezes ouvimos dizer que uma mulher matou seu companheiro porque este a traiu, ou porque a trocou por outra, ou simplesmente porque quis mudar o rumo da vida para outros relacionamentos?

Em casos isolados, pode até ter acontecido – pois de tudo acontece debaixo desse céu, mas de tão reduzidos não são corriqueiros ou estatísticos. Porque a mulher que se sente vitimada não “extermina o algoz”? A resposta pode ser simplificada: A mulher suporta, conduz, ressignifica, aguenta suas dores, é resiliente, mesmo que permaneça remoendo uma vida.

A mulher “traída, trocada, insultada, rejeitada e vítima” sobrevive. Busca outros valores para seguir. O homem traído, ou simplesmente quando deixa de ser “a coisa mais importante da vida da mulher”, simplesmente não aguenta. Não consegue sobreviver na sociedade machista, porque o desenlace funciona como se ele perdesse sua decência, dignidade, virilidade e moral. E aí bater ou tirar a vida da vítima se torna uma forma monstruosa de ser o macho que faz prevalecer sua honra e dignidade.

Nós, mulheres, que somos vítimas de assédio sexual, estupro, preconceitos, rebaixamentos, já sabemos que nossa decência não está atrelada à conduta do outro. Descobrimos, a duras penas, que nós determinamos nosso valor e não os outros.

A sociedade machista forma criminosos há muitos anos, acabam com vidas, gera sofrimentos intensos. Famílias rompidas e desestruturadas. Isso, todo mundo sabe. O que não se parece saber é que os homens precisam aprender a conviver com a mudança cultural do comportamento feminino – elas decidem para onde querem ir, são donas de si, de seus corpos e não dependem mais dos homens machos mantenedores. O que não significa que não são capazes de permanecer com um relacionamento amoroso pela vida toda. Se assim quiserem.

A consciência coletiva masculina precisa cuidar de viver em harmonia com os novos paradigmas. Caso contrário, os homens entrarão na fila para ser o próximo assassino ou o próximo agressor, quando se depararem com sua parceira simplesmente decidindo fazer algo diferente, que não estava previsto nas regras convencionais.

O clichê aqui cabe perfeitamente: para uma porta fechada, sempre há uma, duas ou três janelas abertas.

Enfim, o homem precisa amadurecer e aprender a conviver com sua dor.

Sem matar e nem bater em ninguém diante de suas próprias fraquezas.

Afinal, como é covarde e pequena a masculinidade diante da monstruosidade da violência.

*Bianca Stella Azevedo Barroso, promotora de Justiça do MPPE

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