O fator Temer

O fator Temer

Victor Missiato*

30 de janeiro de 2021 | 10h00

Michel Temer. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

O relógio marcava 11 horas da manhã, quando Michel Temer anunciou a liberação dos insumos para a produção da vacina contra a covid-19. Solicitado pelo governo federal e pelo governo estadual de São Paulo, duas forças antagônicas no decorrer da pandemia, o ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-Presidente da República, novamente protagonizou uma política de liderança nacional, dessa vez sem possuir qualquer tipo de cargo político.

Paradoxalmente, o prestígio de Temer contrasta com a sua popularidade. Em junho de 2018, Temer atingiu seu ápice impopular com 82% de reprovação, segundo o Datafolha. Enquanto o político do MDB colecionava pedidos de impeachment, a maior de greve de caminhoneiros da história do país, além de ter sido considerado um “golpista”, após impeachment de Dilma Rousseff, seu governo reduzia a inflação para índices positivamente razoáveis, freava a selvageria dos gastos públicos, desburocratizava as relações de comércio e trabalho, reabria o Brasil para o comércio internacional, trazia novamente a credibilidade para a Petrobrás e modernizava o ensino básico brasileiro.

Após o cumprimento do seu mandato presidencial, com a volta de índices positivos no crescimento da economia brasileira, após herdar um país com inflação acima dos dois dígitos e um PIB negativo por dois anos, Temer foi preso. Tratou-se de uma decisão da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro, que julgou Temer culpado por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. No entanto, em maio de 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), por unanimidade, concedeu habeas corpus ao ex-presidente.

Diante de tal situação constrangedora, seria possível supor que Michel Temer iria se recolher e evitar qualquer ação de cunho político. Porém, sua experiência e seu perfil balanceador vêm servindo de referência a gregos, troianos e até petistas. Não foram duas ou três vezes que Bolsonaro e Temer se comunicaram via telefone no decorrer da Presidência atual. Há, entre os dois políticos, uma relação sóbria e respeitosa. No outro lado, Temer possui uma boa relação com o bloco Dória-Maia, ao ponto de ser decisivo na escolha de Baleia Rossi como principal candidato à oposição para assumir a Presidência da Câmara dos Deputados. Enquanto Temer consegue manter suas boas relações nas duas canoas mais conflitivas da pandemia, suas manobras conseguiram aglutinar, inclusive, seus maiores inimigos. Se, em 2016, o PT o acusava de “golpista”, agora seus militantes e intelectuais falam em uma aliança pragmática com a “centro-direita” para derrotar o “fascismo”.

Independentemente dos resultados das eleições para Presidência das Casas Legislativas, nós já temos um vencedor. E, por mais que a História possa ser reelaborada e reinventada por historiadores, mediante suas visões de mundo, o tempo da política segue conforme a influência daqueles que a compreende enquanto uma luta incessante pelo equilíbrio.

*Victor Missiato é doutor em História, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o Desenvolvimento Humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca)

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