O errante

O errante

João Linhares*

31 de janeiro de 2021 | 04h00

João Linhares Júnior. FOTO: DIVULGAÇÃO

Machado de Assis explicitou, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, que o homem é uma errata pensante. Sem maiores presunções, creio que o Bruxo do Cosme Velho deveria estar falando de alguém muito parecido comigo; aliás, no conto machadiano “O Imortal”, há um personagem (tabelião) do qual sou homônimo. Portanto, a hipótese, conquanto remota, é plausível.

Deveras, erro a todo momento, a qualquer instante. Erro mesmo quando acerto. Erro até dormindo, quando quero sonhar uma coisa positiva e tenho pesadelos. E isso não é exclusividade minha, porquanto o ser humano é assim, em maior ou menor medida.

Nossa impulsividade, rigidez, senso de perfeccionismo, personalidade explosiva ou o reverso (modo impassível e acentuado de ser, desleixo, inação, complacência) nos fazem incorrer em ações ou em omissões intempestivas e descabidas. Tende a ser assim com todo mundo, um pouco a mais ou a menos…

Recorrentemente, buscamos acertar e promover o bem, conferir alegria às pessoas, entretanto, não raras vezes acabamos magoando familiares, amigos, conhecidos, colegas de trabalho e afastando-nos de nós mesmos. Quando notamos, o estrago já está feito e o ato falho foi consumado.

E o nosso orgulho, em determinadas contingências, não nos permite pedir perdão explicitamente.  Se o fazemos, ainda assim é, frequentemente, de forma escamoteada. Por quê?

A mente humana é muito cativa do pretérito, de circunstâncias que nos marcaram positiva e negativamente. A nossa parte lúcida, racional, compreende que tudo decorreu e que não mais persiste no plano material, que houve a modificação temporal das coisas e, no aspecto pessoal, que obtivemos, provavelmente, o crescimento espiritual e material, porém, à luz sobretudo de fatos e de efemérides ruins, a nossa vertente emocional e psicológica, a depender do átimo, eclode, domina, verga, escraviza e chicoteia! Deixa cicatrizes, revigora grilhões. Quiçá por isso, F. Scott Fitzgerald, em “O Grande Gatsby”, tenha assinalado ao encerrar a referida obra: “E assim prosseguimos, barcos contra a corrente, arrastados incessantemente para o passado”; quer para as virtudes, quer para as desventuras.

Olhar para o que fluiu com dor consubstancia tortura perene, sem possibilidade de avanço, pois não podemos alterar o passado. Por outro lado, o porvir é puramente abstrato e só existe nas nossas expectativas e devaneios.

Logo, precisamos conferir novo significado ao que deixamos para trás, mirar o presente, edificando o futuro no agora; esta conclusão é evidente e parece ser muito singela de empreender no discurso. Acontece que, no subconsciente, o jogo contém outras regras e elas são draconianas e, vez ou outra, inescrutáveis e sensíveis. É imprescindível muita reflexão e prática, especialmente do perdão, da resignação e da tolerância, para a mudança evolutiva efetivamente suceder.

E, nessa toada, entre altos e baixos, a vida vai seguindo como aquele barquinho contra uma torrente. A gente acomoda-se, prossegue; ocorre que, na primeira desilusão ou oportunidade, olhamos de soslaio, novamente, no retrovisor do destino. Nesse caminho de constantes idas e vindas, há muitos píncaros, vitórias na vida de todos, não obstante, a queda outrossim é habitual. O chão é duro. E como dói!

Por que essa erronia intermitente?

Neste ano, nesta nova década que ainda está no proêmio, da parte que me cabe, almejo evoluir e burilar algumas asperezas de minha personalidade; pretendo ser, principalmente, mais tolerante e errar menos. Utopia? É provável, no entanto, vou tentar! Todo início de ano renovamos as veleidades, realimentamos e criamos quimeras, perseguimos objetivos. Reafirmamos propósitos de mudança. Não é à toa que o primeiro mês é dedicado a Jano, o deus romano de duas faces, o senhor da transição, cujos olhos estão direcionados para trás e para frente.

Não vislumbrarei o passado e o futuro com veemência e apego exagerado, ou seja, minha visão, sempre que possível, fitará o meu umbigo, nem demasiadamente à esquerda, tampouco à direita. Jano que me perdoe! E quando o desespero e o desalento despontarem, invocarei Khalil Gibran: “A mente racionaliza, mas é o espírito que alcança o coração da vida e abraça o seu segredo; e a semente do espírito é imortal.”

Quero abraçar muito mais, culpar menos, criticar pouco – é óbvio-ululante que, de quando em vez, isso é inevitável e peremptório. E até gostoso, convenhamos…

Pretendo sorrir das vicissitudes, chorar de gratidão e, como Vinícius de Moraes, ler os clássicos com a afeição que a mocidade não permite. Não é só: verei imagens nas nuvens, saborearei, com calma, o prato de que tanto gosto e que, todavia, ultimamente mal tenho provado, em decorrência da ansiedade cotidiana e da mira rotineira do celular na mão e da televisão ligada no noticiário.

Almejo contemplar os amigos nas suas imperfeições, sentir o perfume dos meus pés de tangerina e de pitanga, torcer para que a florada do limoeiro vingue, apreciar o balé das plantas ao vento, extasiar-me com o canto do sabiá-laranjeira que fez um ninho no aparelho de ar condicionado do meu quarto e que me desperta, diariamente, ao alvorecer com sua sinfonia eufórica e repleta de alegria.

Quero nadar com o ilustre visitante que recebo todo santo dia: um bem-te-vi que se deleita na piscina de casa; ao meio-dia em ponto, ele mergulha na água, indiferente ao mundo, e exibe-se confiante, estende as asas coloridas, solta o canto imponente e dá, garbosamente, o seu espetáculo. Vou aplaudi-lo com meu espírito, ovacioná-lo com orações mentais. Desejo sentir a terra adubada nas mãos, enquanto planto uma alface, estimar as minhocas furando o chão como perfeitos, antigos e minúsculos metrôs…

Ao invés de me lamuriar, agradecerei ao cosmo insondável as cãs inesperadas que surgirem e as rugas que vincarem a minha face; elas são o sinal de que estou vencendo o tempo, progredindo com ele, envelhecendo com a dádiva divina.

Acho que posso alcançar o que expus. Há algumas dessas metas que são hercúleas, não o nego, entrementes, compreender o problema é um longo passo para solucioná-lo. Será que acertarei a resposta? Não o sei, contudo não tenho mais receio de errar e tampouco de sonhar.

Afinal, o maior pesadelo e o mais contundente equívoco consistem em não enfrentar a si mesmo. O que nos impede de, eventualmente, desenhar nas nuvens, de navegar em águas serenas e hialinas com o nosso barquinho imbuído de esperanças, de nos enlevar com o choro da chuva e de cantar com os bem-te-vis?

*João Linhares Júnior, promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul. Mestre em Garantismo e Direito Processual Penal pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado em Jurisdição Constitucional e Direitos Fundamentais pela PUC – RJ. Eleito integrante da Academia Maçônica de Letras de MS

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