O empreendedor e a raposa-do-ártico

O empreendedor e a raposa-do-ártico

Recusar-se a aceitar a crise é abraçar a escuridão; o caminho para a luz se encontra na adaptação

Alberto Hamoui*

10 de maio de 2020 | 07h00

Alberto Hamoui. FOTO: DIVULGAÇÃO

A raposa é um mamífero que vive, normalmente, em locais de climas temperados. Porém, existe uma raposa específica que vive em um habitat nada “natural” à sua espécie: o ártico. A raposa-do-ártico desenvolveu adaptações incríveis que nenhuma das outras espécies têm para conseguir sobreviver em um ambiente nada amistoso. Entre algumas, desenvolveu pernas e orelhas menores para perder menos calor; e consegue mudar a cor dos pelos para se camuflar. No inverno, sua pelagem fica branca como a neve e, em outras estações, suas tonalidade muda para castanho ou cinzento, podendo se disfarçar entre rochas e plantas.

Tempos difíceis sempre existiram e sempre irão existir; é o que fortalece a humanidade e faz o mundo evoluir. Estamos vivendo, de fato, um dos tempos mais difíceis do mundo contemporâneo. Um vírus que se tivesse o privilégio da racionalidade humana teria sido reputado como um inimigo de altíssima perspicácia estratégica, que não apenas causa dano à saúde humana, mas combinou uma mistura de incerteza e pânico que resultou na necessidade de reclusão completa da humanidade e então consequente crise econômica.

O ambiente agora é outro. Não estamos mais em nosso habitat natural. Dormimos em um ecossistema de calor e vegetação e acordamos no ártico, em uma paisagem abraçada por neve, animais completamente diferentes e desconhecidos e muito, muito frio. Estamos vivenciando, na pele, o darwinismo em sua mais pura forma. Infelizmente, aqueles que não procurarem se adaptar terão dias mais escuros pela frente. Não existe saída. Somos obrigados a abraçar um processo de adaptação para garantirmos nossa sobrevivência. Como a raposa-do-ártico, precisamos aprender a nos adaptar a esse novo ambiente.

O microempreendedor individual e o trabalhador informal, entre outros, foram e serão ainda mais impactados.

A dinâmica do isolamento social é completamente divergente à metodologia de venda de grande parte deles e nunca foi tão fundamental abraçar uma adequação de estratégia de operação. Para eles, escrevo buscando estimular a motivação para buscarem, dedicadamente, um ajuste à própria operação de cada.

Em primeiro lugar, é primordial que o empreendedor abandone o ceticismo. Existe uma realidade indiscutível que fornece um ambiente único; tentar lutar contra, reclamar da situação ou simplesmente se recusar a aceitar a crise é suicida. A raposa-do-ártico não reclama para a Mãe Natureza que o ambiente dela é muito frio ou que é injusto que corujas atacam seus filhotes. Ela aceitou seu habitat e se adaptou a ele. O empreendedor precisa fazer isso. Deixe as teorias de conspiração e brigas políticas para as redes sociais.

O professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EESP), Marcelo Kfoury, disse recentemente que a economia brasileira deverá cair 5% em 2020. Ele prevê também queda da Selic em 0,50 ponto porcentual no próximo Comitê de Política Monetária (Copom).

Outro dado que ratifica que a crise é real é o número de desempregados. O Ministério da Economia estima que houve um aumento de 150 mil pessoas sem emprego no País entre março e a primeira quinzena de abril deste ano, ante ao mesmo período de 2019.

Portanto, trabalhe assumindo que as receitas vão cair e a entrada de capital não estará disponível nos próximos meses. Ter esperança é bom para o espírito, porém não podemos nos deixar ser enganados pelo excesso de otimismo. Estamos em um cenário de crise, então temos que trabalhar todos os dias de forma mais cautelosa e saber que não teremos vacas gordas em nosso gado.

Estude o ambiente. Entenda exatamente como e onde o negócio foi afetado para, então, buscar formas de encaixar os produtos e serviços vendidos na nova realidade. O que fez o cliente parar de comprar e como ele vai voltar a comprar? Importante lembrar que ele também foi afetado pela crise e também têm necessidades interrompidas.

Uma boa forma para encontrar novas adequações ao negócio é planejar uma operação nova: fingir que está iniciando as aventuras empreendedores apenas agora e basear tudo na realidade atual. Volte ao dia 01. Nascemos de novo em um mundo diferente e temos que criar tudo de novo do zero.

Junto a isso, é essencial um planejamento financeiro. Este planejamento é um hábito muitas vezes negligenciado pelo empreendedor por ser complexo e cansativo. Mas é isso que faz toda a diferença. Planejar o negócio é conhecê-lo por dentro. Domine a si mesmo como ninguém. Entenda exatamente como o dinheiro vai entrar e sair, conheça todas as despesas, faça projeções futuras conservadoras, saiba o lucro no final do mês.

Para quem já têm um planejamento financeiro ou para quem começou agora, um cenário de crise obriga o empreendedor a ter uma posição conservadora. Concentre nas despesas e tampe furos desnecessários: separe todas as despesas como essenciais e não essenciais e corte as não essenciais. Se tiver em uma situação mais apertada, pague apenas o que é fundamental para gerar receita.

Parceiros devem ser repensados. Todos estão renegociando acordos, e por um motivo justo. Importante que o empreendedor converse com todos os fornecedores e parceiros, coloque na mesa os problemas e necessidades e revise os preços. Os custos devem sim ser reconstruídos para cenários de crise.

Dentre tudo isso, a mentalidade do empreendedor é a mais importante. Uma mentalidade saudável de um otimismo realista, resiliência, firmeza e entusiasmo é essencial para abraçar a nova realidade. Cada empreendedor tem desafios diferentes, uns mais impactados por conta da crise e outros de uma natureza que dificulta a adaptação. Mas como disse notoriamente o general Aníbal, “ou nós encontramos um caminho ou abrimos um”. Não desista. Sejamos como a raposa-do-ártico e nos adaptemos mesmo nas circunstâncias mais complicadas.

*Alberto Hamoui, fundador e CEO do Hybank

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