O efeito manada

O efeito manada

José Renato Nalini*

04 de junho de 2022 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Não é fácil ser humano. Mas também não há alternativa. Se não se aceitar a condição de ser alguém que pensa e que pode escolher, alguém que tem um tribunal interior que o julga, irremediavelmente, ainda que se queira ignorar, então essa criatura só pode ser um animal irracional.

Acreditamos em livre-arbítrio e é por isso que condenamos quem erra. Como se todos tivessem perfeita noção da sua capacidade de optar por um caminho ou por outro. Não nos enganemos. Em circunstâncias apropriadas, em contextos muito singulares, temos certeza de que escolheremos a vereda equivocada.

Nossa ambiciosa pretensão nos faz crer que temos controle sobre nossa existência. A realidade mostra algo muito diferente. O discernimento é bastante relativo. Há outras causas que exercem forte influência sobre nós. Richard Holloway, no livro “Entre o monstro e o santo – reflexões sobre a condição humana”, explora essa bipolaridade que incide sobre a espécie dita racional. Diz ele que “enquanto estamos teoricamente no comando do nosso próprio caráter e de seu desenvolvimento, grande parte dele é programado por forças sobre as quais jamais tivemos controle algum. Afora a memória imperscrutável da espécie humana que há dentro de nós, cada um de nós foi lançado em um contexto de vida único e específico, cujos primeiros estágios surtiram efeitos profundos, para o bem ou para o mal, na nossa história”.

Além disso, estamos sujeitos à atração gravitacional do rebanho humano. Ocorre que “o rebanho humano, quando provocado coletivamente, é um dos mais ferozes animais do planeta. É responsável por todos os linchamentos, todos os estupros em grupo, todos os atos de genocídio, todas as caças às bruxas, todas as brigas horríveis de pensamento grupal que já afligiram a comunidade humana”.

Parece surreal, mas legiões de pessoas pretensamente escolarizadas, ditas cultas e eruditas, navegam nas águas tenebrosas de alguém que se considera superdotado e merecedor de reverências, homenagens, vassalagem, desde que permaneça no comando. A história da humanidade está repleta de episódios semelhantes. O fenômeno Adolf Hitler, na disciplinada e austera Alemanha, Benito Mussolini na Itália, para permanecer nos que já se foram.

O mal nunca esteve ausente da trajetória dos racionais por este sacrificado e exaurido planeta. “O triste é que parece que sempre há a presença de monstros carismáticos, que são brilhantes na provocação do rebanho e o hipnotizam, transformando-o em grupo servil e obediente a suas ideias aterrorizantes”.

Tudo se torna ainda mais grave, com a intensificação do uso das redes sociais, que funcionam à base de algoritmos, servos da Inteligência Artificial que manipulam a consciência débil e transformam o destinatário em robô imbecil, um autômato que repete sempre o mesmo, convencendo-se da narrativa incessantemente veiculada.

Raros os indivíduos insensíveis às pressões, com equilíbrio suficiente para detectar as fake News, falar coerentemente, denunciar as mentiras.

A maioria da população, no dizer de Holloway, que se inclui nesse rol, é tíbia e não reage. “Nós outros, nos acotovelamos na incerteza, entre os monstros e os mártires: estranhamente atraídos pelo magnetismo do vilão, não obstante esperançosos com a coragem do santo. A história indicaria que somos mais suscetíveis ao poder sedutor do monstro do que à contestação feroz do santo. Argumentarei, contudo, que a história também nos ensina que podemos chegar ao entendimento da trágica complexidade da condição humana e nos empenhar por mitigar os danos que fazemos uns aos outros. O modo de iniciar essa reviravolta é falar a verdade a nosso respeito a nós mesmos. A sinceridade radical sobre nós mesmos é o solo onde a piedade pode florescer”.

E o mundo precisa muito de piedade. Comiseração em relação aos excluídos, aos famintos, aos desempregados, aos moradores de rua, aos desprovidos de perspectiva de futuro e, portanto, privados de um alimento imprescindível: a esperança.

Piedade para com os frágeis, mas coragem em relação aos fortes. “O sinal denunciador de que há uma ameaça psicológica, e não teológica, à espreita, sob a superfície do debate é a presença da raiva…O poder fica com raiva quando é ameaçado”.

A presença da raiva é um eloquente testemunho do inconsciente de quem ameaça por se sentir ameaçado. Vivendo e aprendendo!

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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