O efeito colateral do boato

O efeito colateral do boato

José Renato Nalini*

14 de junho de 2022 | 09h00

José Renato Nalini. FOTO: DIVULGAÇÃO

Os boatos nem sempre são fake news. A sabedoria popular tem sua razão quando apregoa: “o povo aumenta, mas não inventa”. Ou seja: “onde há fumaça há fogo” e há sempre um fundo de verdade quando se dissemina alguma novidade picante. Sim, porque as novidades edificantes não têm curso duradouro. Basta numa roda mencionar boas qualidades de alguém e o assunto logo toma rumo diverso. Falar bem não atrai ninguém.

Mas o boato é um hobby tradicional dos brasileiros. Desde os tempos da Colônia, sobravam os alcoviteiros, os alardeadores de notícias semiverdadeiras. Os fofoqueiros.

Menotti Del Picchia observa que por mais incisivas ordens possam proibir a veiculação de boatos, “eles se multiplicam numa florada rica de imaginação e de esperanças”. Não é fenômeno novo. É a floração espiritual de todos os acontecimentos. “O boato nasce de uma palestra, de uma hipótese, de uma exclamação e até de um sorriso. Ganha corpo, verossimilhança e instantes depois reveste-se das mais seguras características da verdade e da certeza”.

O boato parece gêmeo da piada. Os brasileiros são expertos em fazer piadas de bom e de mau gosto. Principalmente de mau gosto, porque essas são mais fáceis de propalar e encontram ouvidos sempre atentos.

Para Monteiro Lobato, “o boato é uma volúpia e uma necessidade. É uma válvula necessária ao excesso de carga do nervosismo. O boato faz bem. Alivia o espírito e produz sadias descargas de bom humor. Com um bom boato dorme-se uma noite tranquila e um bom sono é uma nova reserva de força construtiva para a continuação da batalha. Deixem soltos os boatos. Não os persigam como criminosos. A humanidade necessita e vive de ilusões. Não matemos as ilusões pelo gosto puritano de sermos exatos ou severos”.

Lobato assim falava com Menotti Del Picchia, ao tempo da Revolução de 9 de julho de 1932. Logo emendava: – “Por falar nisso, o que há de novo hoje?”.

Se Menotti, que então atuava no Gabinete do Governador Washington Luís, dissesse “Hoje não há nada. Não temos notícias”, isso não sossegava Lobato. “O criador do Jéca-Tatu, franzindo suas espessas sobrancelhas que não descontinuam a felpuda linha sinuosa que lhe risca a fronte já nobilitada por alguns cabelos brancos, retrucava: “Chi! Como vocês são atrasados! Estou vendo que aqui em Palácio é o lugar onde as notícias chegam por último… Em seguida, despejava uma série de boatos que obtivera em suas conversas na rua.

O boato, àquela época, na reprodução de Menotti, “dizia bem o mestre das “Cidades Mortas”, era um derivativo jovial das horas de ânsia e da enervante expectativa. Flor efêmera da imaginação, criava o inexistente, mas povoava as horas vazias de possibilidades promissoras. Engendravam-se boatos de todos os estilos. Nasciam com a espontaneidade das ervas. Uns coloridos com os matizes rosados do otimismo, outros com as cores negras das derrotas. Havia boatos positivos, prestigiados na aparência da sua verdade pelo clássico “fulano viu”, “fulano ouviu de sicrano”. Havia boatos vagos – “soube isto de boa fonte”. Havia-os mudos, que nasciam do próprio silêncio, pela simples interpretação de um rosto. “Hoje fulano estava sorrindo. As coisas vão bem”.

E o poeta do “Juca Mulato” continuava: “esses boatos mudos tinham um prestígio formidável, supersticioso, tal qual as interpretações dos aruspices nos sagrados ritos clássicos. Todos eram boateiros. O prazer de espalhar uma boa notícia dava-lhes um curso fulmíneo. Corriam a cidade de canto a canto, de bairro a bairro. Eram, como na famosa canção de d. Bartolo, a princípio uma pequena brisa, depois um vento célere, depois um furacão desencadeado”.

A boataria continua como esporte nacional. Assim como o futebol já foi um dia, substituído pela litigância judicial. Custa tanto acreditar – quando se fala no exterior que o Brasil tem cerca de cem milhões de processos em curso pelos quase cem tribunais do Poder Judiciário – que os interlocutores estrangeiros entendem ser gabolice, ou exagero, não conseguem levar a sério. A narrativa adquire o tom e o sentido de um boato.

O boato recebe fertilizante e incentivo em épocas eleitorais. Num Brasil que ainda não perdeu a ilusão da monarquia, os candidatos parecem “cabeças coroadas”: tudo o que acontece ou “parece acontecer” com eles, logo se espalha como rastilho de pólvora. Muitas vezes até coincide ser verdadeiro o boato. Mas quando ele é de verdade, quase sempre perde a graça.

Não detonemos, portanto, a Central de boatos, cada vez mais atuante e cada vez mais próspera.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-202

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