O discurso de ódio

O discurso de ódio

Silvina Ramal*

24 Janeiro 2018 | 04h00

Silvina Ramal. FOTO: Renato Bairros

“O perigo colocado pela extrema direita ao nosso povo encontra expressão na inegável aversão de largas secções de nosso povo.”

“Tudo que o homem tente alcançar como alvo supremo, …, é para os esquerdistas apenas um meio para alcançar um fim, a forma de satisfazer sua cobiça pelo ouro e pelo domínio.”

“O objetivo final deve ser a remoção irrevogável dos refugiados em geral.”

Você conhece pessoas com suficiente ódio por algum grupo social ou político para dizer frases semelhantes a essas?

As frases acima foram ditas por Hitler, na chamada Carta Gemlich, uma carta de sua autoria onde explica a importância do anti-semitismo.

Na verdade, onde diz ‘extrema direita’, ‘esquerdistas’ ou ‘refugiados’, na carta original estava escrito ‘judeus’.

Nessa época, Hitler era um aluno recém formado em um curso promovido pelo exército alemão onde se promoveu o nacionalismo alemão e o anti-semitismo.

Esta carta é exemplo ímpar do que é um discurso de ódio. Quando se deixa de discutir ideias ou opiniões, para acreditar que ‘o inferno é o outro’ e que, portanto, esse ‘outro’ tem que ser tratado como uma maçã podre no cesto, e ser eliminado antes que contamine as outras frutas.

Não se trata aqui de defender ou atacar qualquer posição política. Este não é um texto a favor do grupo A ou B, mas é um texto sobre ódio.

É importante levantar a questão porque, junto à discussão sobre a estratégia de reconstrução do país, enfraquecido por sucessivos governos corruptos e ineficientes, há o crescimento do discurso de ódio.

Não só contra quem roubou e saqueou o país, gerando ainda mais miséria e caos econômico, mas também contra o grupo que defende um caminho político diferente do que outro grupo acredita ser o melhor.

O ódio é ruim, o ódio mal administrado envenena o emocional, levando uma pessoa a ser ressentida, amarga, frustrada. Ele também contamina as relações sociais e a paz de uma cidade, estado ou país. E finalmente, inviabiliza qualquer projeto político democrático.

Se uma pessoa sente o ódio crescer internamente e dominar seu discurso, é importante que se lembre de alguns pontos.

Primeiro, que ninguém conhece a verdade absoluta nem a solução fácil para problemas complexos.

Qualquer pessoa que se visse frente a frente com os problemas que são debatidos hoje nos jornais, veria que a situação é muito mais complexa do que parece, e que o que parecia resolver-se num estalar de dedos tem muitos mais lados e facetas do que se imaginava.

Existe um exercício muito interessante que os coachs conhecem e aplicam. Consiste em pedir a uma pessoa que defendeu uma posição que, no instante seguinte, defenda a posição exatamente contrária.

Esse exercício é muito esclarecedor e ajuda a formar uma visão mais ampla e completa de qualquer situação. Então, que tal fazer o exercício de se colocar no lugar dos que defendes ideias opostas?

Em segundo lugar, em algumas citações famosas do ditador, vemos que Hitler se sentia um enviado de Deus, alguém a quem o Senhor tinha confiado uma missão difícil e de grande responsabilidade.

No entanto, nem Hitler, nem a maioria da humanidade dos tempos atuais, quiçá sua totalidade, foi escolhido por Deus para salvar seu povo.

Somos apenas um grupo tentando entender como podemos viver juntos e gerar paz e justiça para todos os habitantes do planeta.

É claro que alguns têm motivações mais nobres que outros, mas até isso é difícil de julgar.

Em terceiro lugar, como dizia o famoso professor de Negociação de Harvard, William Ury, duro com a questão, suave com as pessoas.

É necessário defender com energia e firmeza uma posição, até às últimas consequências. Mas sem esquecer que a pessoa do outro lado da mesa é um ser humano igual, com dúvidas, incertezas, ignorâncias, e ele também está tentando fazer seu melhor.

Finalmente, ao sentir um ódio incontrolável brotando, não vale a pena se culpar.

Todos, em algum momento da vida, sentem ódio, isso faz parte da condição humana.

Mas o ideal é canalizar o ódio para algo produtivo.

O ódio pode ser uma energia poderosa de trabalho e criação, pode levar a grandes realizações que tragam o bem para muitas pessoas.

Então, mesmo quando uma pessoa sentir ódio, é importante trabalhar para aplicá-lo na promoção do bem comum.

*Silvina Ramal é Mestre em Administração e autora de 11 livros sobre gestão