O discurso antivacina mata

O discurso antivacina mata

Luiz Henrique Lima*

21 de fevereiro de 2022 | 08h00

Luiz Henrique Lima. FOTO: DIVULGAÇÃO

O discurso antivacina mata. Perdoem-me os leitores mais sensíveis. Não é exagero. É fato.

Vacinas salvam vidas. Vacinas previnem doenças. Vacinas evitam sofrimento e dor. Vacinas protegem a infraestrutura de saúde pública de enfrentar superlotação ou colapso. Vacinas economizam bilhões de reais de recursos públicos e privados, com a redução de internações e de aplicação de medicamentos, exames e procedimentos médicos, bem como a perda de dias de trabalho em licenças e afastamentos e a perda de produtividade geral na economia.

As vacinas foram uma grande realização da ciência e uma grande conquista da humanidade.

O discurso antivacina mata.

O discurso antivacina confunde, boicota, perturba e atrasa o processo de vacinação. Graças ao discurso antivacina, nos últimos anos o Brasil regrediu na cobertura vacinal de diversas enfermidades, expondo a sua população, especialmente a mais vulnerável, a risco muito maior de contaminação.

O discurso antivacina é mentiroso, hipócrita e covarde.

É mentiroso porque se ancora em dados falsos, notícias manipuladas, argumentos falaciosos e interpretações enviesadas. Desqualificam o método científico e o substituem por enredos conspiratórios de última categoria.

É hipócrita porque muitas vezes não se apresenta como é, mas sob algum disfarce supostamente mais palatável. São aqueles que dizem “não sou antivacina, mas …”. É uma hipocrisia semelhante à de certos racistas, machistas e homofóbicos que proferem ou praticam as maiores barbaridades, insultos e agressões e depois tentam se justificar dizendo que agiram ou falaram “no calor do momento” ou que estavam apenas galhofando. Os antivacina dissimulados utilizam subterfúgios para lançar suspeitas de toda espécie contra tudo e contra todos que estejam atuando no combate à pandemia, cuja existência muitos deles negaram. E é um discurso hipócrita também porque muitos que o propagam se vacinaram às escondidas e guardam sigilo sobre seus cartões de vacinação.

É covarde, principalmente agora que está direcionado para a vacinação infantil contra a Covid-19. Multiplicam boatos e notícias falsas para plantar dúvidas na mente de pais e responsáveis quanto à segurança da vacinação infantil. Ora, os órgãos regulatórios que aprovaram a vacinação infantil, aqui e em outros países, foram os mesmos que aprovaram as vacinas que os marmanjos antivacinas tomaram.  Para eles, a vacina serviu. Agora que estão bem imunizados, lançam questionamentos e dúvidas sobre a proteção das crianças. Dezenas de milhões de crianças abaixo de 15 anos de idade nos EUA, Europa, China e Oriente Médio já tomaram vacinas contra a Covid-19 de diversos fabricantes, sem registro significativo de problemas graves.

O discurso antivacina é assassino.

O atraso deliberado na aquisição de vacinas pelo Brasil no segundo semestre de 2020 produziu muitas dezenas de milhares de mortes evitáveis. Cada um dos leitores deste artigo conhece alguém que morreu de Covid-19 antes de ter tido a oportunidade de se vacinar. Um familiar, um amigo, um colega de trabalho, um vizinho. Nenhum de vocês leitores conhece alguém que tenha sido vítima da vacina.

Por responsabilidade de algumas autoridades, as vacinas chegaram ao Brasil de forma tardia e num ritmo muito lento. Mas agora, por responsabilidade de muitos que disseminam a pregação antivacina, há vacinas disponíveis e pessoas temerosas de completar o ciclo de imunização ou de levar os seus filhos e netos para serem vacinados. Por causa do discurso antivacina que se reproduz diariamente em redes sociais, o índice de vacinação de crianças contra a Covid-19 é muito inferior ao de adultos. E inúmeras crianças não vacinadas estão adoecendo e morrendo.

Os antivacinas irão carregar essas mortes na consciência. Sim, acredito que, apesar de tudo, têm alguma consciência. E, mais, muitos são inteligentes e informados. O que estão fazendo ao boicotar a vacinação infantil é simplesmente monstruoso. Inclusive porque a maioria deles próprios foram ao SUS se vacinar. Deus tenha misericórdia para com eles, para com as crianças e para com todos nós.

*Luiz Henrique Lima é professor e auditor substituto de conselheiro do TCE-MT

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