O digital fertilizando um S de possibilidades

O digital fertilizando um S de possibilidades

Reinaldo Pamponet*

20 de agosto de 2021 | 03h30

Reinaldo Pamponet. FOTO: DIVULGAÇÃO

O renomado historiador Yuval Harari, em seu livro mais popular Homo Sapiens, reforça o ponto chave que diferencia nós humanos de outras espécies vivas: a nossa capacidade de inventar, imaginar, criar. Esse best seller surge em um momento histórico onde nós, humanos, estamos sendo atacados como nunca na nossa capacidade de criar, trazendo marcas muito negativas e impactando fortemente nossa saúde mental. E isso acontece justamente no momento onde inovação e inventividade são mais do que necessárias para liderar os desafios mundiais.

Infelizmente, o que vemos hoje é um ambiente contrário: um dos maiores processos exploratórios em larga escala, liderado pela grande maioria das bigtechs com seu modelo de negócio focado em explorar a nossa capacidade criativa, manipulando nossas escolhas e impactando nossa inventividade. Algumas evidências já apontam que o ser humano está se robotizando e isso tem levado a uma estatística negativa mesmo antes da crise da Covid: redução da expectativa de vida pela primeira vez na história nos EUA e Reino Unido, fruto de overdoses de drogas, legalizadas ou não, assim como suicídio, que está galopante.

Como isso impacta diretamente o Brasil?

Segundo o último levantamento oficial feito pela Firjan/RJ, no Brasil, a expectativa é que em 2021 a Economia Criativa estaria na ordem de US$ 40 bi, o que remete a cerca de R$200 bilhões em valores atualizados. Esse valor se destaca não só por sua magnitude, mas por seu valor estrutural: é no espaço do intangível que mora a sabedoria de um povo, suas raízes culturais, sua imaginação, onde se vê a criação de arquétipos de concordância e a formação de cidadãos conscientes. Essa potência do intangível – nossa Inteligência Coletiva – é a matriz para a capacidade de inovação de um país, pronto para usar toda a sua potência para solucionar questões e criar o novo. Um valor gerado com nossa criatividade e ideias e que, se não reconhecido e apropriado por nós, facilmente é levado para fora.

Somos um país ávido a consumir todo tipo de novidade tecnológica, sempre em destaque nos índices de liderança em tempo online e consumo das redes sociais. Mas esse jogo mostra justamente o contrário: estamos sendo consumidos.

Como o Brasil pode virar o jogo? As empresas precisam compreender e mudar rapidamente a prática de delegar aos algoritmos das bigtechs a relação com seus stakeholders – e aqui falo, principalmente, seus consumidores. Compreender que essa relação é sua razão de existência, e contribuir para impactar negativamente sua saúde mental também representa impactar seu bolso. Se a razão da existência final de uma marca é chegar na mão dos seus consumidores, algo está errado.

Estamos destruindo aos poucos o que mais precisamos, pessoas saudáveis e ativando a economia. As bigtechs ainda não inventaram um robô que vá ao supermercado fazer as compras da semana, um robô que coloque crédito em celular; para os governos, fica a dica: robô também não paga imposto e, para nossa economia, só tem sobrado a precarização nas relações de trabalho.

Meu convite: iniciar um processo de realocação desses R$ 200 bilhões para, de forma transparente e direta, ao invés de pagar apenas os robôs, pagar também pelas ideias das pessoas, criando comunidades de troca de ideias e valor entre marcas e seus consumidores. Ganham os consumidores que são convidados a usar o espaço digital de forma saudável, se expressando e colaborando com as marcas que fazem parte da sua rotina; ganham as empresas que criam uma relação mais afetiva com seus consumidores e, ao remunerá-los por suas ideias, reativam seus bolsos e seu poder de compra. Geramos impacto direto na saúde mental da sociedade, geramos trabalho e renda com a nossa Economia Criativa, que além de grandiosa e fundamental, é a excelente saída para os tão sonhados crescimentos exponenciais. Para isso, precisamos iniciar um processo de dignificar a ação humana nas mídias sociais que consumimos.

Pois se os dados são o novo petróleo, as ideias são a nossa gasolina.

*Reinaldo Pamponet, CEO da Noon

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