O dia seguinte: nossa escolha

O dia seguinte: nossa escolha

João Rogério Alves Filho*

10 de abril de 2020 | 06h00

João Rogério Alves Filho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vivemos, pela primeira vez, uma pandemia transmitida em tempo real a partir de todos os cantos do planeta. Cadáveres queimados em plena rua no Equador, sem-teto isolado sobre o asfalto em Los Angeles, uma empilhadeira depositando cadáver em baú frigorífico em Manhattan. Carros funerários colhendo a última benção, param por segundos frente a um sacerdote distante 20 metros na Itália. Na China, tenta-se deter o que se desenha como uma segunda onda de propagação do mau. Voltamos ao Brasil para uma atualização dos dados epidemiológicos… Isso tudo em 5 minutos de algum noticiário.

Enquanto esse moto contínuo angustiante perdura há semanas, e por algumas mais perdurará, perguntas começam a formar fila para que a humanidade, serena, mas firmemente, as responda depois que essa primeira onda se dissipar. Podemos dizer que todas elas, ao fim, envolvem uma discussão moral, um imperativo categórico kantiano.

Listo algumas que já se mostram óbvias, sem qualquer ordem de importância ou prioridade:

  • Garantia de renda mínima universal e acesso à saúde e à educação podem ser incluídos em uma pauta liberal? Qual a síntese entre o estado de bem-estar social e o estado pautado pelo liberalismo econômico?
  • Como mitigar o risco de concentração de algum segmento estratégico de produção industrial em apenas um país?
  • Até onde as fronteiras geopolíticas e o poder econômico das nações podem se sobrepor a direitos universais do ser humano? (ONU, 1948)
  • Como lidaremos a partir de agora com a miséria em qualquer local do planeta?
  • Amadureceremos o processo de escolha, vigilância e cobrança dos governantes e representantes que elegemos?
  • Capital, tecnologia e mão-de-obra; são essas figuras antagônicas ou simbióticas?
  • Como a perspectiva de uma depressão revisará os valores que amparam o dilema de cada indivíduo entre consumismo e propensão a poupar?
  • A crescente concentração de riqueza observada no mundo todo é algo bom ou ruim? Se ruim, podemos corrigir de forma justa?
  • Como regular as redes sociais e aplicativos de mensagem instantânea de modo a tê-los como ferramentas da interação humana colaborativa e enriquecedora de conhecimento?

Se algo de bom sairá disso que estamos passando, é a possibilidade de, a partir do exemplo de fragilidade de nossa ordem mundial, refletirmos sobre o que queremos daqui para a frente como espécie humana.

Sem a menor dúvida sairemos diferentes dessa crise mundial, entretanto, a escolha de sairmos melhores será somente nossa.

*João Rogério Alves Filho é economista e sócio-diretor da PPK Consultoria

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