O Dia Mundial da Segurança do Paciente conta com aprendizados aeronáuticos

O Dia Mundial da Segurança do Paciente conta com aprendizados aeronáuticos

Daniela Gonçalves*

17 de setembro de 2020 | 02h45

Daniela Gonçalves. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Dia Mundial da Segurança do Paciente, celebrado em 17 de setembro, este ano chama a atenção não só para a qualidade da assistência à saúde – uma prioridade global, mas também para o cuidado centrado no profissional da área. Anualmente, na data que foi definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), profissionais se unem a acadêmicos, pesquisadores, provedores, legisladores e pacientes para abordar o tema, trazendo suas contribuições para o desenvolvimento de estratégias e melhores práticas visando a redução de riscos, danos e eventos adversos que causam prejuízos a sociedade em geral.

Para refletirmos sobre a importância do assunto, basta lembrar que diariamente médicos, enfermeiros e demais equipes envolvidas em um ambiente ambulatorial ou hospitalar atuam em um cenário extremamente dinâmico. A pandemia do Covid-19, por exemplo trouxe complexidade ao cuidado centrado no paciente, exigindo destes profissionais um alto volume de assimilação de informações, levando-os ao limite de suas capacidades produtivas, com degradações cognitivas, físicas e emocionais, e outras variáveis que exercem influência nos mais diversos contextos pessoais e laborais. Com isso, a interatividade entre processos e pessoas demanda melhor coordenação das rotinas que são dependentes umas das outras. O conhecimento precisa ser sistêmico, o que por si só potencializa a prática de habilidades como trabalho em equipe, comunicação assertiva, planejamento, tomada de decisão, pensamento crítico e velocidade de resposta.

Tais habilidades que comumente já são ditas como essenciais a profissionais de diferentes segmentos, tornam-se ainda mais necessárias para aqueles que atuam em indústrias de alta confiabilidade, como a área da saúde dada a sua natureza operacional. Fica então evidente que, para garantir a sustentabilidade de uma Cultura de Segurança do Paciente, deve-se considerar que a atenção primária comece valorizando o cuidando do próprio profissional de saúde; portanto, reconhecer que errar é humano e que pessoas são vulneráveis e comentem falhas é o primeiro passo. Diante desta afirmação, cada vez mais os hospitais incluem no planejamento estratégico a integração de sistemas de gerenciamento de risco, melhorias em aspectos de gestão da qualidade, entre outras iniciativas que promovam o desenvolvimento de seus times. Um exemplo, são as capacitações com simulações de cenários adversos com o uso de realidade virtual, e de cursos que aprimoram habilidades não técnicas, mais conhecidas como soft skills.

Na aviação, uma potente ferramenta que atinge este objetivo é o treinamento de Corporate Resource Management (CRM) – Gerenciamento de Recursos da Corporação. Obrigatório na indústria aeronáutica há mais de três décadas, originalmente era destinado aos pilotos, depois aos comissários e demais equipes. No final dos anos 70, pesquisas realizadas pela NASA e Universidade do Texas constataram que o erro humano era a principal causa dos acidentes. Tais evidências estimularam o consenso entre as empresas aéreas, indústria aeronáutica e governo quanto à necessidade de incrementar programas de capacitação em fatores humanos – uma ciência que segundo a Organização de Aviação Civil Internacional (OACI, DOC 9683), trata-se de “qualquer fator relacionado aos seres humanos, sendo este a parte mais flexível, adaptável e valiosa do sistema aeronáutico, mas também a mais vulnerável a influências que podem afetar negativamente seu comportamento”. Já a Agência de Pesquisa e Qualidade em Saúde (AHRQ, 2018), define como “o estudo das interações entre os indivíduos – sejam eles profissionais ou pacientes e seus familiares -, os equipamentos, os processos organizacionais e o ambiente da organização que visa tornar o cuidado de saúde mais seguro e efetivo”. Para ambas, o foco é a segurança.

Deste modo, tanto na aviação como na saúde, fatores humanos está se destacando no que tange ao comportamento seguro das pessoas, justamente por buscar elevar os níveis de eficiência das operações e o bem-estar dos indivíduos. O treinamento de CRM propicia a prática de gerenciamento moderno, visando o uso adequado e eficaz de todos os recursos disponíveis (humanos, equipamentos e informações) que interagem em um sistema corporativo. Assim, abre-se espaço para especialistas e cientistas de áreas de estudo interdisciplinar, para a reflexão quanto aos benefícios que a gestão em saúde pode ter ao compartilhar experiências e aprendizados com a aviação.

Portanto, o CRM não é apenas uma capacitação, é um programa sistêmico que trabalha a integração e confiança mútua entre os multiprofissionais; reduz falhas humanas; atua na otimização de custos, aumento do lucro e outros indicadores operacionais capazes de entregar excelentes resultados. Organizações que aplicam esta filosofia, preservam a integridade de seus colaboradores e clientes, protegem a imagem junto aos stakeholders e garantem o sucesso dos negócios. Em resumo, CRM salva vidas!

*Daniela Gonçalves, consultora de treinamento e desenvolvimento humano e organizacional da Veraque e professora de cursos de gestão e coordenadora de pós-graduação da Estácio, campus Conceição

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