O Dia Mundial da Criatividade e Inovação e o futuro do trabalho

O Dia Mundial da Criatividade e Inovação e o futuro do trabalho

Luiz Salomão Ribas Gomez*

20 de abril de 2021 | 03h00

Luiz Salomão Ribas Gomez. FOTO: DIVULGAÇÃO

A edição mais recente do relatório The Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, lista pontos que merecem ser vistos com muita atenção por aqueles que se preocupam – e quem não se preocuparia? – com o desenvolvimento econômico e social do País. A pandemia do novo coronavírus, que revela sua face mais trágica nos hospitais, causa danos imediatos consideráveis também no mercado de trabalho – e acelera de forma significativa transformações estruturais que vinham ocorrendo de maneira gradual.

Há pouco tempo, a expectativa era de que 65% das crianças que estavam iniciando a aprendizagem escolar iriam ocupar cargos que até então sequer existiam quando completassem o ensino médio ou a faculdade. Essa perspectiva não foi revista até o momento. Mas o levantamento do Fórum Econômico, feito a partir de impressões de líderes empresariais globais e de dados públicos e privados sobre o mercado de trabalho, diz que a pandemia trouxe “uma perspectiva de grande incerteza” e acelerou a chegada do futuro do trabalho.

O relatório mostra ainda que a atual crise pode exacerbar desigualdades, com impacto significativo sobre o trabalho dos indivíduos com menor escolaridade, e que haverá uma substituição significativa da atuação humana na execução de tarefas repetitivas em um período bastante curto. Em cinco anos, a automação pode acabar com nada menos do que 85 milhões de empregos ao redor do globo.

Há motivos de sobra para preocupação. Mas o alerta sobre os impactos da pandemia é essencial e deve nos motivar a buscar soluções. Principalmente porque o mesmo relatório do Fórum Econômico indica que até 2025 devem surgir 97 milhões de vagas de trabalho mais adaptadas à nova divisão de tarefas entre humanos, máquinas e algoritmos. O saldo, portanto, pode ser positivo.

Agora, depois de longos quatro parágrafos, finalmente chegamos ao ponto indicado no título do artigo. A decisão de tornar o 21 de abril como o Dia Mundial da Criatividade e Inovação teve a intenção declarada pela Organização das Nações Unidas de destacar que a prática dessas duas palavrinhas pode ajudar a solucionar problemas em áreas como desenvolvimento econômico, social e sustentável. Diante de um cenário de transformações intensas no mercado de trabalho, essa constatação poderia ser gravada na pedra – ou transformada em peças produzidas em uma impressora 3D e distribuídas nas escolas, empresas e órgãos públicos.

A criatividade está em alta – e o exercício dessa capacidade humana tão presente entre os brasileiros será cada vez mais importante. Com as tarefas repetitivas executadas por máquinas, caberá às mulheres e aos homens a criação de novos produtos; de tecnologias inovadoras; de conteúdos para o lazer ou o aprendizado; da arte; da gastronomia; da moda e a análise de dados, situações e cenários para a tomada de decisões.

Mas precisamos estar preparados para ocupar esses novos espaços. A criatividade não se basta ou esgota em si mesma. Ela precisa ser exercitada dia a dia e direcionada a um propósito. Não se trata, obviamente, de reduzir esse talento quase divino – o de criar algo novo a partir de ideias – a uma atividade meramente utilitarista.

A criatividade exige sonho, ousadia e alguma inadequação ao mundo “estabelecido” – sem isso é impossível identificar a necessidade de mudança. Mas o processo criativo exige também conhecimento, disciplina e algum suor. Não são poucos os gênios da literatura ou das artes plásticas que relatam a dura rotina de produzir e ajustar e analisar e refazer seus trabalhos em busca daquilo que consideram o ideal. Também há um longo processo técnico envolvido na metamorfose de uma ideia em um produto acabado.

O Brasil precisa concentrar esforços e acelerar se não quiser perder o bonde – ou o veículo elétrico, figura mais adequada aos dias de hoje – da economia criativa. A lista de tarefas a executar inclui a melhoria da oferta de educação formal; o estímulo à criação de ambientes de inovação; a facilitação do acesso a financiamento para empresas desses novos segmentos e uma série de outras melhorias no ambiente de mercado e concorrência.

Em paralelo, há que se mudar a forma tradicional de pensar de grande parte dos brasileiros e derrubar alguns tabus erguidos pela educação tradicional. A criatividade não é exclusiva de gênios. Pelo contrário: ela é uma característica inata do homo sapiens sapiens. Infelizmente, porém, nosso modelo educacional, que pouco mudou desde o século 18, “castra” a propenssão natural das crianças de reinventar o mundo, gerando adultos resistentes, com medo de serem criativos. Derrubar esses obstáculos é tarefa árdua, que pode ser feita com auxílio de gatilhos biológicos, emocionais e de conectividade, com trabalho colaborativo que gere resultados criativos e que levam à Inovação.

No contexto atual,  é essencial atrair mais e mais pessoas para o fúnil da inovação e da criatividade, mostrando que a coragem de pensar o novo pode transformar vidas e cidades e o País. A melhor forma de celebrar o Dia Mundial da Criatividade é encontrar meios de tornar esse talento e essa maneira de ver e estar no mundo disponíveis para cada vez mais pessoas. O futuro exige isso de nós.

*Luiz Salomão Ribas Gomez, criador do Cocreation Lab

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