O Dia do Trabalho em meio à pandemia  

O Dia do Trabalho em meio à pandemia  

Marcelo Arone*

01 de maio de 2020 | 04h15

Marcelo Arone. FOTO: DIVULGAÇÃO

Toda crise acelera os processos de transformação, seja ela na sociedade, na vida dos indivíduos (pessoal + profissional) ou nos pequenos detalhes do dia a dia. No mercado de trabalho, não será diferente. Em plena tormenta da covid-19, se olharmos pra trás, já podemos observar que, em pouco mais de um mês, todo aquele ecossistema corporativo moderno que foi construído ao longo dos últimos anos já teve que se ajustar às novas tendências que a carreira pós coronavírus irá demandar.

Bons exemplos do que essas mudanças podem gerar de frutos não faltam, tanto para os empresários como para os profissionais em busca de uma nova oportunidade. Uma delas é a da Nutella – ao fim da segunda guerra mundial, seu fundador, Pietro Ferrero, resolveu acrescentar Avelã ao chocolate por conta da escassez de cacau na Europa, para que seu produto rendesse mais. Hoje, o produto é referência de mercado.

No caso da mão de obra, temos exemplo muito recentes de profissionais de diferentes indústrias que migraram para áreas de Tecnologia. Engenheiros, Economistas, Administradores que eram disputados por áreas, em teoria, mais “glamourosas”, como bancos, consultorias ou grandes empresas de consumo, trocaram a gravata pelos startups, fintechs e empresas de inovação nos últimos 10 anos. A maioria deles, com grande sucesso.

Claramente, esse “novo normal” para carreiras e profissões extrairá lições do período de quarentena e distanciamento social. Estamos vivendo a história. Nossos filhos e netos irão nos perguntar daqui a alguns anos: o que foi esse tal de coronavírus?

Vagas que já vinham crescendo e foram “turbinadas” pelo distanciamento social, em sua maioria, estão ligadas à área digital e ao consumo básico. São áreas clássicas de necessidade humana que Maslow nos ensinou no século passado: alimentos, segurança e saúde. Empresas que já tinham plataforma online de vendas largaram na frente, mas muitas se adaptaram em menos de 10 dias. Seguradoras, empresas de telemedicina, EAD, streamings, empresas que oferecem ferramentas de trabalho remoto e e-commerce tiveram que contratar com urgência pessoas em diferentes níveis no epicentro da crise, entre março e abril.

Setores que entraram em “quarentena” junto com as pessoas, mas não são itens de primeira necessidade, acabaram sofrendo uma quebra maior, mas voltam, gradativamente, de acordo com a flexibilização das regras de distanciamento e à diminuição do pânico inicial do consumidor: serviços de beleza, roupas, acessórios, eletrodomésticos e varejo em geral ensaiam a partir do dia das mães uma recuperação, mas irão apostar todas as fichas no segundo semestre, quando, historicamente o resultado desses segmentos já são maiores. Mas, muitos, já conseguiram se adequar e tomar iniciativas de vendas digital, promoções e conseguem ter um avanço, ainda que pequeno.

A situação mais complexa, nesse momento, fica com as empresas que juntam fatores de risco para uma contaminação direta ou em massa: eventos ou shows com aglomeração, empresas aéreas que levam 200 / 300 / 400 pessoas num espaço fechado por algumas ou muitas horas e restaurantes com pouco espaço. Por mais que as pessoas possam retomar a normalidade de “ir e vir”, o instinto de proteção será maior. Ainda mais quando você corre o risco de chegar em casa e transmitir pra sua família. Antes que uma vacina ou imunização em massa seja efetivamente liberada, esses segmentos irão esperar um tempo maior de retomada.

Não devemos comparar essa crise de 2020 com a de 2008 em nenhum lugar do mundo. Primeiro, porque estamos muito mais parecidos com 1929 e, segundo, porque esse problema atual envolve saúde e economia e não somente o último. O que podemos fazer é tirar como lição que empresas que desligaram mais pessoas do que deveriam, há 12 anos, tiveram que recontratar boa parte delas porque o mercado no Brasil voltou mais rápido comparado a outros países. Houve um custo duplo de demissão e novas contratações, inflacionando inclusive salários nos anos seguintes. Aposto em um movimento similar nessa nova década que estamos vivendo. Se o Brasil conseguir, de fato, “domar” o vírus sem colapsar nosso sistema de saúde e o estrago aqui for menor do que em países Europeus e nos Estados Unidos, os investimentos e a confiança também devem voltar antes. Em tempo: Custa menos demitir alguém do que pegar um empréstimo com algum banco.

Não bastando as incertezas todas com as quais nos deparamos em um curto espaço de tempo, temos fatores macro que irão impactar diretamente no mercado de trabalho do brasileiro: Política, Novas Reformas e Conjuntura Internacional serão o tripé estratégico que nos darão uma maior ou menor previsibilidade de quanto tempo nossa taxa de desemprego irá se manter alta ou não.

Teremos mais oportunidades se nossos governantes “falarem a mesma língua”, se o poder público em paralelo der o exemplo e diminuir os gastos do dinheiro de cada contribuinte, através de ajustes fiscais e administrativos e, por fim, nesse jogo de xadrez do mundo globalizado (até então antes do novo normal), podemos nos deparar com uma nova ordem de pólos econômicos se formando ao redor do mundo, em áreas que representam um menor risco de imagem. E nosso país tem total capacidade de juntar tudo isso para empresas do mundo todo. O trabalhador brasileiro agradecerá se isso acontecer todos os dias e não somente no dia 1º de Maio.

*Marcelo Arone é headhunter e sócio da Optme RH

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