O Dia da Indústria merece a reflexão dos brasileiros

O Dia da Indústria merece a reflexão dos brasileiros

Rafael Cervone*

25 de maio de 2021 | 05h30

Rafael Cervone. FOTO: DIVULGAÇÃO

Neste Dia da Indústria, 25 de maio, é pertinente analisar com lucidez e objetividade a importância decisiva do setor para a recuperação da economia brasileira e mundial, conforme tem se observado no B20, braço privado do G20, do qual participo. As nações europeias estão ampliando prazos e diferindo impostos da atividade e o governo dos Estados Unidos destinou US$ 300 bilhões à indústria. O chão de fábrica é o novo epicentro da retomada do crescimento, das disputas internacionais entre as grandes economias e da solução dos impactos provocados pela pandemia da Covid-19.

No Brasil, lamentavelmente, estamos na contramão dessa inteligente e irreversível tendência. Aqui, fala-se em abrir mais os portos às “nações amigas”, sem que tenhamos grau de competitividade adequado para tal aventura aduaneira. E numa conjuntura na qual se observa certo recrudescimento do protecionismo e mais verticalização das cadeias de valores. O novo coronavírus deu um alerta geral quanto aos riscos da dependência excessiva, como temos observado e sentido no tocante aos insumos de vacinas produzidos no Exterior.

Em nosso país, em vez de se promover o fomento do setor mais gerador de tecnologia, pesquisa e inovação – que tem os melhores salários, produz bens e produtos de alto valor agregado e é empregador intensivo de mão de obra – aplica-se a ele o mais duro regime tributário. Sim, a indústria paga impostos de modo desproporcional, pois representa 11% do PIB, mas responde por 33% da arrecadação federal e 31,2% da previdenciária patronal. Apesar disso, tem relevante papel socioeconômico, pois é responsável por mais da metade das exportações de bens, 69,2% do investimento empresarial em P&D e 20,4% dos empregos formais no País.

No Estado de São Paulo, cujo parque industrial representa 30% do total brasileiro, o setor responde por 17,20% de todos os empregos formais e 21,12% do Valor Adicionado. Além disso, paga salário médio de R$ 3.931,00, o mais alto dentre todos os setores. Também contribui de modo expressivo para as exportações estaduais anuais de U$S 51,72 bilhões (valor FOB/2019). Essas informações da Fundação Seade – Sistema Estadual de Análise de Dados evidenciam haver um equívoco no tratamento dado à indústria no Brasil, inclusive em momentos inoportunos como o atual, quando o próprio governo de São Paulo aumentou o ICMS, apenando ainda mais o setor.

A atividade está enfrentando, há muitos anos, sistemática queda de competitividade, devido aos conhecidos fatores do Custo Brasil, como os altos impostos, insegurança jurídica, excesso de burocracia, encargos trabalhistas onerosos e anacrônicos. Neste momento, no qual é prioritário salvar vidas, também precisamos realizar, em plena crise, as reformas postergadas por décadas, a começar por um novo sistema de impostos, mais justo, isonômico, que não taxe investimentos e exportações e incentive o empreendedorismo. É urgente, ainda, uma política industrial eficaz, pois as nações que conseguiram dobrar a renda em menos de duas décadas foram somente aquelas que elevaram a participação do setor no PIB acima de 20%.

Do modo mais duro possível, a pandemia está nos ensinando numerosas lições. Uma delas – talvez a mais emblemática – refere-se ao risco da dependência em áreas decisivas para a saúde, a vida e a inclusão socioeconômica. Somente venceremos de modo definitivo tais ameaças se tivermos uma indústria forte, competitiva e capaz de multiplicar o valor que já agrega à economia brasileira. No enfrentamento da Covid-19, o setor já demonstrou isso, desenvolvendo numerosas soluções e inovações, produzindo rapidamente produtos essenciais à assepsia, contenção do contágio e proteção individual, mantendo milhões de empregos e contribuindo para a resistência heroica da economia nacional.

*Rafael Cervone, empresário, é vice-presidente da Fiesp e do Ciesp (Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo)

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