O desembargador, a pandemia e o escravo Prudêncio: Machado já sabia!

O desembargador, a pandemia e o escravo Prudêncio: Machado já sabia!

​​​​​Lenio Luiz Streck e ​​​​​Marco Aurélio de Carvalho*

20 de julho de 2020 | 13h48

​​​​​Lenio Luiz Streck e ​​​​​Marco Aurélio de Carvalho. Fotos: Divulgação

O episódio do desembargador e do guarda de trânsito – que ocupou as manchetes dos principais jornais do país no final de semana – não é novidade. A “jurisprudência social” é pródiga. Quem já não presenciou uma autoridade qualquer dizendo algo como “você sabe quem eu sou”? Ou dizendo algo ainda mais direto e constrangedor como: “sou desembargador, engenheiro ou professor e… sou mais do que você”. E coisas assim. Com pequenas variações, mas calçadas no mesmo sentimento e na mesma falsa e perversa noção da realidade.

O que dizer sobre o comportamento do desembargador (que já está sendo sindicado pelo CNJ)?  Um milhão de coisas. E até farisaísmos, de gente que faz a mesma coisa e acha que o inferno são os outros. Aliás, o próprio secretário municipal logo atendeu o telefonema.  Afinal, era de um desembargador. Será que o secretário atende assim telefonemas a rodo?

Machado de Assis, o nosso Flaubert que inaugurou o realismo literário brasileiro, já sabia que o Brasil sofreria com sérios problemas no futuro, justamente por causa do seu passado. E vendo o desembargador (lembremos da desembargadora do Rio de Janeiro e suas opiniões sobre Mariele Franco), parece que Machado fez viagem no tempo e utilizou esses casos para escrever alguns de seus livros e contos. Um deles é Memórias Póstumas de Brás Cucas. Bom, Brás Cubas resolve escrever, postumamente, episódios “relevantes” de sua vida.

Um deles deve ser este que presenciamos.  O ataque ao pobre do guarda municipal de Santos. Um orgulho do personagem de Machado é o de que nunca precisou comprar o pão com o suor de seu rosto. Maltratava os escravos. E terceirizava os castigos. Prudêncio – que era seu escravo – dele apanha e por ele apanhava. Nada mais há a dizer. Machado sabia de tudo. Ele explicou no século XIX o Brasil do século XXI. Por meio do personagem Rubião, de Quincas Borba, o Brasil fica esculpido em carrara. Quando a sorte coloca o poder na mão de um homem… Enfim, o resto os leitores podem ver na obra.

Machado também escreveu a Teoria do medalhão. O pai de Janjão dá conselhos ao menino quando este completa 21 anos. Mostra-lhe como se dar bem. O pai lhe ensinou: Em vez de escrever um tratado sobre carneiros, compre um carneiro, asse e convide os amigos. É mais efetivo.

O que fica disso tudo? Nada. Se ficasse, tudo o que já aconteceu até hoje já nos teria ensinado que esse patrimonialismo é uma chaga e tem de ser enfrentado de frente.

Não se deve passar a mão por cima. Pelo patrimonialismo, as esferas públicas e privadas se misturam. Por isso, o desembargador acha que manda até no guarda de trânsito, que, por sua vez, manda no mais fraco. É assim que a coisa funciona. Assim, a impessoalidade e a imparcialidade vão pelo ralo.

Por que será que existe parcialidade? Machado já sabia. Em um país de Prudêncios e de assado(re)s de carneiros, a melhor opção sempre foi a de ficar do “lado certo” do balcão. E poder ligar para autoridades. E rasgar as multas. E chamar aos que “não sabem francês” (essa foi outra patacoada do Desembargador, conforme amplamente mostrado pela mídia) de analfabetos.

Vejam a diferença de autoridades: enquanto o Desembargador paulista, personagem do imbróglio do uso das máscaras, acha que é mais do que os seus conterrâneos e mostra descaso com a saúde pública, outra autoridade faz o contrário: falamos do Ministro Gilmar Mendes, que chamou a atenção do governo e dos militares para os seríssimos e perigosos rumos da pandemia, com já quase assustadoras 80 mil mortes. Os desdobramentos todos viram. Os militares e tanta gente reclamou, não do governo, mas do Ministro. Em vez de apagarem o incêndio, incendiaram o mensageiro. Chegaram a ter a ousadia de invocar a famigerada Lei de Segurança Nacional, e, pasmem, até mesmo o Código Penal militar.

Para rir, ou para chorar… Falta só agora parte do Brasil dar razão ao desembargador. De todo modo, só Machado para explicar essas coisas. Nada mais atual e oportuno.

*​​​​​Lenio Luiz Streck, jurista, advogado e professor. ​​​​​Marco Aurélio de Carvalho, advogado. Ambos são membros do Grupo Prerrogativas

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.