O desejoso PT

Rodrigo Augusto Prando*

17 de outubro de 2018 | 12h00

Rodrigo Augusto Prando. FOTO: DIVULGAÇÃO

O Partido dos Trabalhadores (PT) deseja – e muito – mais uma vitória nestas eleições. Contudo, neste pleito, o seu querer encontrou com um adversário que o próprio partido acreditou ser mais fácil derrotar: Jair Bolsonaro. Aqui, neste momento, sem as decisões no calor da hora, fica, sem dúvida, mais fácil tecer críticas à estratégia eleitoral do PT, mas a crítica, desde que bem fundamentada e honesta, creio, tem seu valor.

Um primeiro ponto a se destacar é que o PT decidiu manter Lula candidato até o último momento, com sua narrativa de perseguição política, de uma conspiração da mídia, do Judiciário, das elites, dos EUA, de quase todos os não petistas contra Lula e o partido.

Lula não seria um político preso e, sim, um “preso político”, com manifestações até em conselhos da ONU, bem como lideranças mundiais que divulgaram sua indignação com a prisão do ex-operário e líder máximo do PT. Só quando, finalmente, ficou claro, com as decisões da Justiça, que Lula não poderia concorrer porque se encontra preso e inelegível pela Lei da Ficha Limpa, é que Fernando Haddad foi ungido candidato do partido.

Há tempos, jornalistas questionaram-me se com Lula preso e fora da disputa, Bolsonaro não perderia o mais forte de seu discurso e tenderia à irrelevância. Eu afirmei que, sim, com saída de cena de Lula, Bolsonaro perderia uma parte substancial de sua verve discursiva, contudo, ele poderia desidratar, mas não desaparecer pelo fato de que seus valores, ideias e posturas já haviam conquistado uma parte significativa do eleitorado brasileiro.

Assim, numa tentativa de correlação lógica, manter Lula até o final em evidência fez, também, que Bolsonaro mantivesse o principal de sua força: o antipetismo. Tivesse, por exemplo, o PT optado, desde logo, por Haddad e, com isso, trabalhado uma imagem mais amena, de centro, distante do discurso mais radical do partido e, ainda, sem a presença sufocante de Lula, provavelmente, o quadro ainda seria de vantagem de Bolsonaro, mas não com essa enorme diferença.

Outro aspecto que merece ênfase é que Bolsonaro foi, como dito, poupado no primeiro turno dos ataques petistas, pois tinham a crença de ser mais fácil derrota-lo agora no segundo turno. Tal raciocínio não se confirmou e houve uma corrida dos estrategistas de marketing para reconfigurar o logo, as cores e até retirar o nome de Lula da campanha.

Obviamente, essa guinada “colorida” que tirou o vermelho da campanha foi alvo dos “memes” do exército bolsonarista nas redes sociais. E, caro leitor, se há um espaço que Bolsonaro foi o mais forte e impactante candidato nestas eleições, este espaço é no universo virtual. Ali, no Facebook e no WhatsApp, Bolsonaro e seus seguidores foram e são implacáveis deixando os antigos MAVs (militantes de ambientes virtuais) do PT no chinelo.

E, por fim, os petistas desejosos, querençosos, de apoios, almejaram formar uma tal de “frente democrática” ora contra Bolsonaro, ora contra o “fascismo”. Quiseram angariar o apoio de Marina Silva e de Ciro Gomes, mas não deu certo. Ciro, por exemplo, ofertou apoio crítico e foi para o exterior.

Marina afirmou que Bolsonaro nem pensar, mas não foi explícita em apoiar Haddad. Fernando Henrique Cardoso, também, afirmou que, no trato pessoal, gosta de Haddad, mas que não está, automaticamente, ao lado do PT.

Nisso tudo, o interessante é que, agora, com a água batendo na (já sabe o leitor…) é que o PT quer os democratas ao seu lado contra Bolsonaro. O partido que se transformou numa fábrica de narrativas, começou, lá atrás, com uma das narrativas mais eficientes, denominando tudo o que receberam do Governo FHC de “herança maldita”; mas, agora, querem FHC do seu lado.

Marina Silva, em 2014, teve, por obra do marqueteiro de Dilma, sua imagem “desconstruída” (ou melhor: destruída) na campanha presidencial, colocando-a como aliada de banqueiros e que ela iria tirar a comida da mesa do trabalhador mais pobre; mas, agora, querem Marina ao seu lado.

Ciro Gomes, por sua vez, tomou um drible de Lula, mesmo preso, tirando o apoio do PSB ao seu PDT; mas, agora, querem Ciro junto na batalha final. Há pouco, Cid Gomes, irmão de Ciro, senador eleito, numa conversa com militantes, conclamou os petistas para fazerem uma autocrítica, mas, ao ser vaiado e escutando o nome de Lula, afirmou: “Lula está preso, babaca!”.

Vejam esse poder de síntese tão peculiar aos políticos e que os analistas e marqueteiros levariam um tempo para indicar com a mesma proporção e clareza: “Lula está preso, babaca!”. Esse vídeo viralizou rapidamente e já impactou, novamente, a Campanha de Haddad.

O PT desejoso dos democratas nunca desejou estar ao lado desses mesmos democratas. Até mesmo os “antipetistas contra Bolsonaro” não estão atingindo seu objetivo. O PT nunca, jamais, em tempo algum, quis dialogar com seus adversários de forma responsável. Criou a narrativa do “nós” contra “eles” e, com isso, jogou muita água no moinho de Bolsonaro.

Nem o PSDB nem Marina Silva se sentiam confortáveis para uma disputa nestes termos do “nós x eles”. Todavia, dessa vez, Lula e o PT encontraram em Bolsonaro o tão aguardado “inimigo” e, neste caso, o capitão reformado transita com tranquilidade nessa lógica simplista e, assim como o PT, não está tão preocupado com as consequências desta dinâmica radicalizada e pouco afeita à democracia.

*Rodrigo Augusto Prando, professor e pesquisador do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp

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